
Ana Lúcia Góes M. Barbosa
Espaços edificados para o idoso:
condições de conforto
O fenômeno do
envelhecimento populacional tem sido bastante divulgado nesses
últimos anos pelos diversos veículos de comunicação. Paralelamente a
isso, o tema do idoso vem sendo incorporado às mais variadas linhas
de pesquisa, interferindo na atuação de distintos profissionais que
buscam atender às novas exigências deste mundo que envelhece.
A
velhice pode ser avaliada como algo bom ou ruim: questão polêmica
numa avaliação pessoal. Visto pelo prisma do otimismo, podemos
afirmar que é um avanço, afinal a maioria das pessoas prefere viver
mais a viver menos. A longevidade é uma conquista da humanidade, um
resultado positivo e evidente do crescimento econômico e do
desenvolvimento tecnológico ocorrido no século 20. Mas é preciso
aprender a lidar com a nova situação.
É comum a
associação do idoso ao ser decadente, à fragilidade, a doenças,
remédios, aposentadoria e até mesmo a morte. Entretanto, o aumento
significativo desta camada populacional atinge não só aos
profissionais da medicina, nutrição, farmácia e psicologia, mas
também as áreas tecnológicas e a todo cidadão, ainda que seja de uma
forma menos direta.
Este
progressivo aumento da população idosa em todo o mundo implica numa
revisão de conceitos e aprimoramento profissional, às vezes de
maneira bastante clara e objetiva, como no caso da geriatria, e
outras vezes de uma forma menos evidente, porém determinante,
quando, por exemplo, passa a interferir no dia-a-dia dos
profissionais da economia, política, administrativa, comércio,
turismo, moda e tantos outros.
As
conseqüências do envelhecimento populacional também repercutem na
área da construção civil. Arquitetos, urbanistas, designers de
interiores estão sendo obrigados a se adequar a este novo quadro
populacional, a fim de responderem aos anseios dos cidadãos da 3ª
idade e contribuir para um panorama arquitetônico mais humano,
acessível ao maior número de pessoas possível.
O principal
objetivo do arquiteto, visto dentro de uma abordagem genérica da
arquitetura, é a satisfação dos usuários nos espaços edificados,
provendo o conforto, segurança e bem estar no uso funcional dos
ambientes planejados. Ora, se nos encontramos diante de um perfil de
usuários mais maduros e com perspectivas de se tornarem ainda mais
numerosos nos próximos anos, é sensato que as mudanças na área da
arquitetura ocorram desde as práticas do ensino aos alunos de
graduação, passando por todas as etapas de projeto e construção,
definição do layout e escolha de mobiliários próprios.
A
arquitetura no Brasil passa por um período de marcantes alterações
que podem ser observadas nas normas técnicas, na concepção
arquitetônica e construções de modo geral. Seria injusto afirmar que
na arquitetura contemporânea nada se foi feito em prol do conforto,
do bem-estar e da inclusão social, entretanto o caminho da chamada
arquitetura inclusiva ainda é bastante longo.
O
acelerado crescimento das cidades e a falta de consciência dos
projetistas, construtores e da própria população são responsáveis
por esse resultado freqüentemente inadequado as necessidades
diversificadas. Alterar esta situação significa romper inicialmente
com a barreira do preconceito e da visão de um modelo arquitetônico
já ultrapassado.
No
caminhar desta grande conquista que é a arquitetura inclusiva, a
ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) revisou recentemente
suas recomendações para fins técnicos de dimensionamento dos espaços
ampliando a abordagem da acessibilidade.
A revisão da NBR 9050, norma técnica
para projetos arquitetônicos e urbanos, demonstra uma maior
conscientização da importância da inclusão social, entretanto, para
que os resultados sejam positivos, é necessário que haja também a
devida aplicação e fiscalização destas recomendações registradas na
norma, bem como um planejamento municipal de acessibilidade.
No
estudo da arquitetura inclusiva é de fundamental importância que
sejam consideradas a avaliação do conforto ambiental e a
acessibilidade nos espaços construídos. Para tanto é necessário
conhecer a definição destes termos.
Acessibilidade
A
acessibilidade almejada visa atender a todas as pessoas nos diversos
tipos de edificações, independente de suas condições físicas
limitadas ou fora do “padrão” estabelecido por uma escala humana
desejável. Habitações unifamiliares, moradias coletivas, edificações
comerciais, edificações de uso público e seus respectivos arredores
urbanos devem ser planejados de modo que o maior número possível de
pessoas possam se deslocar com segurança, utilizar os equipamentos e
participar efetivamente das atividades.
São várias as
razões que reforçam a importância do planejamento arquitetônico
acessível. Entre tantas, podemos citar pesquisas que mostram o
grande o número de pessoas que são obrigadas a se mudar de domicílio
por causa da inadequação dos espaços as suas reais necessidades. A
mudança de domicilio para os idosos algumas vezes pode ser
traumática. As reformas para eliminação das barreiras físicas
acarretam transtornos a vida diária e representam gastos aos
proprietários muito superiores aos custos de execução de obras com o
planejamento adequado de acessibilidade.
Acidentes
provenientes de projetos inadequados posteriormente acarretam gastos
com hospitalização e previdência, portanto os projetos acessíveis,
mesmo que aumentem o custo final da construção, este acréscimo será
compensado com uma economia a médio e longo prazo para o governo e
para o cidadão.
Numa
conceituação mais técnica, o termo acessibilidade é definido pela
NBR 9050 como “a possibilidade e condição de alcance, percepção e
entendimento para a utilização com segurança e autonomia de
edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos”. Já
é um grande avanço a indiscriminação deste termo que outrora era
visto como uma necessidade exclusiva dos portadores de deficiência
física. Hoje se sabe que a acessibilidade é um elemento facilitador
na vida de todos e extremamente necessário para os que se apresentam
em condições mais limitadas, com mobilidade reduzida, ainda que
temporariamente.
A busca da
acessibilidade nas edificações, mobiliários, espaços e equipamentos
urbanos envolve uma série de ajustes a serem realizados nas
edificações existentes e na reformulação de critérios relativos ao
ordenamento de prioridades pertinentes a etapa de definição do
partido arquitetônico. Ou seja, a arquitetura e o arquiteto são
convidados a uma “reviravolta de ponta a cabeça”, mudando
radicalmente seu rumo na história.
Chegamos num
ponto em que não dá mais para fechar os olhos para os itens
necessidades e funcionalidade pondo o elemento estético em plano
superior. O mau uso da tecnologia e a preferência pelos designers
inapropriados ao atual perfil humano geram este desajuste entre o
homem e o seu meio ambiente, que se traduzem em problemas de
acessibilidade.
Conforto
O conforto
ambiental nos ambientes construídos contribui para o bem estar,
saúde física, equilíbrio mental e para a melhoria da qualidade de
vida das pessoas. Para o leigo em arquitetura, o conforto é
comumente associado a uma condição privilegiada das classes sociais
mais altas, caracterizada pelos amplos espaços disponíveis,
mobiliários sofisticados, uso do ar condicionado e sistemas de
controle avançados. Entretanto, o conforto não deve ser uma
preocupação exclusiva dos projetos direcionados ao luxo.
O planejamento
dos espaços edificados, mesmo se tratando de habitações de interesse
social para as classes mais baixas, deveria atender aos quesitos
mínimos de conforto. Todo indivíduo, independentemente da sua idade,
necessita de conforto em sua moradia.
Em
bibliografia especifica, Olgay define o conforto variável
segundo uma série de fatores que se dividem em dois grupos básicos:
cultural e fisiológico. No grupo cultural incluem-se os fatores de
ordem moral, social e histórica. No fisiológico, estão os fatores
geológicos, luminosos, térmicos, espacial, de movimento e
geográfico. Estes elementos ainda passam por outros fatores
limitantes: econômicos, necessidades físicas e necessidades
emocionais.
Neste texto, o
conforto do idoso é abordado genericamente sob o ponto de vista
higrotérmico, relativo a satisfação do homem com as condições de
umidade e temperatura ambiente; lumínico, resultado da
luminosidade local; acústico, com respeito à qualidade
sonora, minimizando ruídos e ecos; e antropodinâmico, que se
refere aos movimentos requeridos pelas diversas atividades humanas.
Numa visão
menos técnica, o conforto é avaliado de maneira subjetiva. Podemos
assim dizer que os fatores fisiológicos e culturais variam com a
idade, interferindo na sensação individual do conforto. Embora se
trate de um assunto ainda pouco explorado em pesquisas, algumas
relações entre o fator idade e níveis adequados de iluminação,
audibilidade e de conforto térmico já se esboçam. Verifica-se
através de gráficos produzidos pelas pesquisas afins que a idade
pode efetivamente modificar de maneira drástica as necessidades
específicas em termos qualitativos e quantitativos.
As limitações
decorrentes do processo do envelhecimento podem ser de ordem:
·
sensorial (redução
visual, auditiva, fala e tátil),
·
locomoção,
equilíbrio/coordenação motora (diminuição da força muscular,
reflexos, alcance e manuseio de objetos, problemas ósseos, uso de
bengala, andador, cadeira de rodas, prótese),
·
cognitivos (redução na
capacidade de receber e processar a informação, dificuldade de
concentração, percepção e memória).
Dentro da
diversidade humana ainda devemos considerar os casos de restrição
temporária ou momentânea, tais como: período de tratamento ou pós
cirurgia, mulheres grávidas, pessoas portando crianças no colo ou
transportando carrinhos com bebê, etc.
Sob o aspecto
do conforto higrotérmico, ou seja, o bem estar do homem com
relação à temperatura e umidade no seu ambiente, verificam-se alguns
pontos particulares relacionados ao envelhecimento. Com a idade, as
atividades e o metabolismo humano se reduzem, há uma diminuição na
quantidade de água nos órgãos e na pele, o que faz o idoso sentir
mais frio do que quando jovem. Isso justifica as atitudes
instintivas e culturais tão comuns entre os mais velhos, tais como:
curvar o corpo, diminuindo a área de exposição da pele; esfregar as
mãos ou colocá-las nos bolsos; usar casacos ou roupas de lã quando
aparentemente não é necessário.
Enquanto a
pele de um adulto jovem e saudável é capaz de detectar uma queda de
temperatura de até 0,5º C no ambiente, esta sensibilidade diminui
gradativamente no idoso, de tal maneira que é possível que
ele não perceba, por exemplo, uma queda de 5º C na temperatura.
Assim, tendo maior dificuldade em se adaptar às variações de
temperatura e de perceber que seu corpo está excessivamente frio ou
quente, se expõe a hipotermia ou a hipertermia. Em locais quentes
como o Rio de Janeiro é comum a hipertermia, com o idoso
desidratando-se por permanecer suando por muito tempo sem se dar
conta.
No aspecto do
conforto visual e lumínico, os idosos necessitam de maior
nível de iluminação na área de execução de suas tarefas. Os
contrastes de cores entre paredes, pisos e objetos devem ser
otimizados para auxiliar na identificação dos mesmos. Por serem mais
sensíveis ao ofuscamento e requerem mais tempo de adaptação as
mudanças repentinas de luminosidade, deve-se ter o cuidado de evitar
estes desconfortos.
O conforto
acústico também sofre alterações com a idade. Há uma perda
auditiva gradual e bastante considerável, principalmente nas
freqüências altas, correspondentes aos sons agudos. Esta perda
ocorre em maior grau nos homens do que nas mulheres e representa uma
redução na inteligibilidade da fala.
O conforto
antropodinâmico é um assunto que vem sendo bem explorado em
pesquisas, das quais resultaram novas diretrizes de projeto e
realizações de propostas mais acessíveis. Como exemplos destes
resultados, podemos citar os critérios do Desenho Universal,
conhecido internacionalmente como Universal Design, que visa
atender a maior gama possível de usuários; e recentemente a
atualização da NBR 9050, demonstrando uma mudança de paradigmas.
Ambos contribuem para a inclusão social das pessoas.
Estas
considerações são desconhecidas pelos arquitetos de modo geral e
mediante ao envelhecimento populacional deverão fazer parte do rol
de informações para que tenhamos espaços edificados mais adequados.
De maneira
geral, o ser humano com a idade se torna menos tolerante e menos
adaptável às variações climáticas, a ambientes mal iluminados, a
espaços ruidosos e reverberantes do som. Como recomendações
genéricas de conforto para o idoso nos espaços edificados, podemos
citar:
·
A paisagem, as cores,
os brilhos e as áreas verdes são importantes para o equilíbrio
físico e emocional. O contato diário com a natureza, o ar mais puro,
a exposição controlada ao sol, o espaço para caminhar, exercitar,
conviver com pessoas e animais, são de enorme efeito na saúde, ainda
que difícil de se quantificar este benefício.
·
A criação de espaços
alternativos na área externa da casa, com sol (pátios e jardins) e
sombra (varanda e espaços arborizados) aumentam as chances de se
encontrar um local confortável nos diferentes horários e épocas do
ano. Devido à redução da capacidade de adaptação as variações de
temperatura, estas opções são mais importantes para os idosos.
·
Ambientes internos de
longa permanência como os quartos, por exemplo, merecem especial
atenção quanto a temperatura, iluminação, condição acústica e
qualidade do ar.
·
Na questão do
dimensionamento e da acessibilidade, o projetista pode recorrer as
recomendações da norma NBR 9050/2004, bem como as propostas do
Universal Design, sempre atento às particularidades de cada
situação. É importante também a conscientização do público em geral
para suas reais necessidades e seus direitos como cidadãos.
·
Internamente, os
espaços devem ser amplos, livre de obstáculos físicos nos caminhos,
com devido isolamento aos ruídos inconvenientes, muito bem
iluminados, com entrada de luz natural e ventilação reguláveis,
sempre que possível, pelo próprio idoso.
·
É necessário que os
objetos de uso cotidiano estejam bem visíveis e de fácil alcance:
interruptores, tomadas, campainhas, telefones, interfones, controle
remoto, fechaduras e acionamentos em geral.
Algumas
conclusões
A
adequação dos espaços a diversidade humana, a fim de se incorporar
os princípios da equidade dos direitos de participação de todos, não
é uma tarefa fácil, visto que não foi devidamente considerada nas
décadas passadas. Vivemos cercados de edifícios e de ruas com
inúmeros obstáculos físicos impróprios para a circulação e
utilização autônoma de grande contingente populacional.
Além das
barreiras econômicas que o homem enfrenta quando ao buscar usufruir
os espaços construídos ou não, as barreiras arquitetônicas, urbanas
e atitudinais somam obstáculos ao nosso dia a dia juntamente com a
barreira do preconceito, tão difícil de ser superada. Muitos
arquitetos são movidos pelo preconceito estético e por uma idéia
errônea de funcionalidade; construtores, por sua vez, procuram
seguir a um modismo, produzindo edificações padronizadas para um
“homem médio” e atendendo a uma demanda consumidora que sonha com um
estilo de vida irreal, que será inadequado ao longo de sua vida. Eis
um ciclo vicioso a ser rompido.
A tecnologia
dos novos materiais de construção pode e deve ser aproveitada pelo
homem, mas não com o intuito de envaidecer o criador e o possuidor
da edificação. O arquiteto pode ser criativo mesmo quando torna os
aspectos da acessibilidade, funcionalidade e conforto em itens
prioritários, pois a adequação dos espaços construídos não implica
necessariamente na desvalorização da arte.
A arquitetura
no Brasil vive hoje num período de grandes desafios, conduzindo o
arquiteto ao aprimoramento profissional, a percepção da diversidade
humana, a interpretação de um todo e ao uso da sua criatividade.
Ana Lúcia Góes M. Barbosa
Arquiteta, mestra em Arquitetura (PROARQ,FAU/UFRJ).
Autora da tese: Conforto e Qualidade Ambiental no Habitat do
Idoso. Co-autora do livro: A nova velhice - uma visão
multidisciplinar. Professora do curso de graduação de
Arquitetura e Urbanismo no Centro Universitário Plínio Leite,
Niterói, RJ.
E-mail:
analu@oceanicnet.com.br
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