Suelma  Inês Alves de Deus

Negros, etapas da vida e justiça social 

O tema em discussão, Negritude e Envelhecimento, é um tema relativamente novo no interior do Movimento Negro. Como militante do movimento, temos o compromisso de denunciar a discriminação, a cidadania mutilada, conceito criado pelo prof. Milton Santos, e o preconceito vivenciado pela comunidade afro brasileira.

Passamos parte de nossas vidas nos pronunciando e repudiando as diversas situações de violência contra a criança, o jovem, a mulher e o homem.

As crianças negras sofrem as conseqüências do baixo poder aquisitivo dos seus pais. Geralmente estudam em escolas públicas onde o ensino nem sempre é de boa qualidade e são levadas a introjetar as ideologias do embranquecimento. Nela, o negro é mostrado sempre em condição de inferioridade e subalternidade. 

As crianças afrodescendentes são a maioria entre os menores que perambulam pelas ruas em situação de extrema miséria e, é maioria também, nos orfanatos e nas entidades do tipo FEBEM.

Quanto à juventude, ela ainda é a maior vítima dos assassinatos cometidos por policiais que associam a imagem do negro à do bandido. Entretanto, observa-se que, tradicionalmente, esta parcela da população se organiza e cria estratégias para romper com a lógica da cultura dominante. Atualmente, temos o movimento Hip Hop o qual agrega um número elevado de jovens e é um instrumento que auxilia na conscientização étnica e cidadão dos jovens principalmente os que se encontram em situação de vulnerabilidade social

Quanto às mulheres, são as mais discriminadas entre a população brasileira. Porém, sem se deixar levar pela opressão, na década de 80, as afrodescendentes reagiram à não visibilidade dada às suas questões dentro do movimento de mulheres, se organizaram constituindo um movimento específico para reivindicar e garantir seus direitos, no campo da saúde, do trabalho etc. Elas têm ainda uma luta muito grande pela frente, principalmente no campo trabalhista, uma vez que formam o segmento mais explorado entre os trabalhadores brasileiros.

Finalmente os homens, que tiveram seus antepassados escravizados, sofrem, juntamente com as crianças, jovens e mulheres as mazelas da escravidão. No entanto, de diversas formas reagem contra a supremacia branca, seja por meio das organizações sócias-políticas ou no estilo “black” de se vestir, pentear, falar e ser.

Talvez o leitor pergunte o que as colocações feitas anteriormente tenham a ver com o tema. E a resposta é a seguinte: o envelhecimento da população afrodescendente está relacionado com a opressão que desde a infância sofremos.

A população negra envelhece inserida em uma sociedade em que impera o fenômeno chamado racismo, fenômeno que segundo o professor Kabenguele Munanga pode-se decompor em três elementos distintos inter-relacionados: a ideologia racista, o preconceito racial e a discriminação racial (1998:47). Considerando que no Brasil o racismo não foi institucionalizado, a “envelhecência” dessa população ocorre conectada na luta contra este fenômeno.

Observamos na história do Movimento Negro, militantes importantes que envelheceram intercedendo na sociedade brasileira em prol da igualdade racial, seja no campo político, acadêmico, cultural, religioso. Como exemplos, temos os professores, Kabenguele Munanga, Eduardo Oliveira, Abdias Nascimento.

Na última etapa da vida é acrescentada à população afrodescendente mais uma categoria social: a velhice. Ser negro e velho, muitas vezes, é sofrer com o interesse da sociedade capitalista, interesse que, conforme Simone de Beauvoir, “se baseia quase que exclusivamente no interesse da economia, isto é, o do capital e não o das pessoas” (1990:277).

O envelhecimento traz alterações na dimensão existencial dos indivíduos, cito como exemplo o  esvaziamento dos papéis sociais, a solidão, a perda da autonomia e independência acarretadas geralmente por questões biológicas, o desemprego decorrente da idade avançada, o baixo poder aquisitivo – proveniente dos valores pagos na aposentadoria, as doenças que muitas vezes são o reflexo da precarização social e outros problemas podem ser considerados como algumas dessas alterações. Nessa perspectiva, envelhecer, em nossa sociedade, é viver em situação de vulnerabilidade social.

Porém, enquanto o negro, a mulher, o índio, o homossexual falam, lutam por seus direitos, o idoso, para assegurar seus direitos, romper com a posição de subalternidade que a sociedade capitalista lhe designa bem como imprimir uma nova identidade social, também se organiza, porém, não conquistou ainda a mesma respeitabilidade como as demais organizações políticas, talvez isso ocorra em função do sistema econômico vigente. 

Existem questões específicas dos idosos que devem ser lembradas e discutidas, sejam para idosos negros, brancos ou homossexuais; questões como: direito à saúde, aposentadoria, moradia dignas, modelos novos de instituições de longa permanência que não sejam “depósito de velhos”, serviços diversos de atendimento domiciliar que garantam a permanência do idoso em sua moradia, a promoção e o incentivo à participação em atividades culturais e sociais visando a eliminação da solidão, e, principalmente, o envolvimento nas atividades políticas para aqueles que chegaram na última etapa da vida, sem nunca terem se voltado para atividades dessa natureza.

Assim, eles, em conjunto com os demais, contribuirão para a eliminação da pseudo-democracia em que vivemos, garantindo às novas gerações a plena justiça social que hoje almejamos.

Referências

BARROS, Myriam Moraes Lins. Velhice ou terceira idade? Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. Rio de Janeiro. Editora Fundação Getulio Vargas. 1998.

BEAUVOIR, Simone. A Velhice. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1990.

BRANDÃO, André Augusto P. (org.) Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. EdUFF. Niterói. RJ. 2004.

MUNANGA, Kabenguele. Teorias sobre o racismo. In: Racismo: Perspectivas para um estudo contextualizado da sociedade brasileira. EDUFF. Niterói. Rio Janeiro. 1998.

SFORZA, Luca Cavalli e Francesco Cavalli. Quem somos? História da diversidade humana. Editora Unesp. 

 

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Suelma Inês Alves de Deus

Assistente Social e Mestre em Gerontologia Social pela PUC/SP. Profa. da Faculdade Paulista de Serviço Social de S.Caetano do Sul/SP. E-mail: suelmadeus@hotmail.com  e  habisudest@ig.com.br