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Remédios caseiros

Por Diorindo Lopes Júnior 

Naquele tempo, anterior ao prosaico band-aid, o que nossas mães mais tinham em suas caixinhas de primeiros-socorros era mercúrio-cromo ou Mertiolato, tantos eram os arranhões e hematomas que colecionávamos.  Algumas, por mera precaução, mantinham Melhoral infantil para eventuais febres em gripes de ocasião.  Ungüentos e outros remédios caseiros também compunham o “menu farmacêutico” de nossas mães – mas o tempero principal era o berreiro. 

Juro, nunca conheci um único moleque que não chorasse na hora da mãe curar as feridas.  Pai podia falar que homem não chorava, choro era coisa de mulherzinha que só faltava usar sainha, ameaçar bater e botar de castigo, não tinha jeito.  A gente berrava e chorava mesmo.  Parecia surra.   

Uma vez, chutei o paralelepípedo da sarjeta em vez da bola.  Comecei a gritar antes me esborrachar no chão.  Veio vizinha da rua de cima ver quantas facadas eu havia tomado, pois meus gritos lhe pareceram porco na hora de matar.  Minha mãe demorou alguns minutos, mas foi logo me dando um esporro por algo que deixei de fazer ao sair.  “Conversamos em casa, levante logo daí!”, só permitiu que dois meninos me ajudassem quando alguém lhe falou que eu podia ter quebrado o pé. 

- Duvido.  Esse traste aí só serve para quebrar as coisas.  Ele mesmo... – um carinho especial, só dela. 

Foi uma luta para me tirar o tênis (um Conga) e a meia, o peito do pé parecia um pão de forma.  Arrumou-me um banquinho para tomar banho sentado e passou um dos ungüentos milagrosos de sua caixinha de horrores.  Não resolveu nada.  

Passei a tarde no sofá, gemendo e chorando. 

Meu pai chegou, escutou minha mãe, espiou meu pé – àquela altura um pouco roxo – e sugeriu um emplasto, igual ao que minha avó sempre fazia para um tio metido a jogador de futebol. 

Coisa simples: quatro ou cinco cabeças de alho socadas no pilãozinho, bastante açúcar e vinagre em cima do inchaço.  Para completar, mel.  Depois, embrulharam meu pobre e indefeso pé com papel de pão e minha mãe enfaixou tudo. 

Meu pai achou melhor eu dormir no chão e botou meu colchão na sala.  Como eu não poderia ir à escola no outro dia, podia ver tv até mais tarde.  Adorei. 

Acordei no meio da madrugada, berrando – mas não de dor.  O emplasto doce de alho e vinagre funcionou tão bem que fui correndo para o banheiro.  Ou melhor, para o chuveiro.

Com tanto doce no meu pé, meu colchão tinha virado um verdadeiro formigueiro.

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Diorindo Lopes Júnior - jornalista e autor dos juvenis O Sol em Capricórnio (Atual Editora) e Cesta de 3 (Alis Editora), este indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) como “Leitura Altamente Recomendada”, em 1999

Fonte: Piscopedagogia OnLine, publicado em 27/10/2004

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