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A Ciência da beleza e da juventude

Grupos de universidades brasileiras têm participação importante na pesquisa da área de cosméticos

A preocupação com a beleza tem sido levada em consideração nos laboratórios das universidades brasileiras. Isso porque ela está muito ligada à qualidade de vida e, conseqüentemente, à saúde. É por este motivo que a cosmetologia - estudo dos cosméticos que leva em conta a fabricação, composição e forma de uso destes - tem se livrado aos poucos do preconceito que provocava entre os pesquisadores.

A prova da nova visão dos cientistas é que no 18º Congresso Brasileiro de Cosmetologia, que está acontecendo esta semana na capital paulista, o número de conferências ministradas por pesquisadores e grupos de universidades brasileiras é praticamente o mesmo dos institutos de pesquisas ligados à indústria.

Esta é uma ciência relativamente nova, que ganhou impulso especialmente com os estudos sobre genética e envelhecimento. O retardo dos sinais externos e internos do corpo humano que surgem com o passar dos anos é o principal foco dos estudos. Refletindo, claro, o desejo humano mais antigo da busca pela juventude eterna.

A preocupação em adiar os sintomas do tempo no organismo pode ser hoje explicada pelo aumento da expectativa de vida no mundo todo. O diretor de Pesquisa da Universidade de Paris, o francês Ladislas Robert, em participação no Congresso, apresentou dados afirmando que no ano 2025, espera-se que 14% da população mundial tenha mais de 60 anos, faixa etária que representava apenas 8% em 1950.

Segundo o pesquisador, os processos de envelhecimento que não são programados geneticamente são possíveis de serem revertidos. Ele cita, por exemplo, que a elastina, proteína responsável pela elasticidade da pele, começa a acumular cálcio com o passar dos anos, perdendo sua propriedade. "O organismo, com o passar do tempo, começa a trabalhar contra si mesmo", diz Robert.

Os fatores que aceleram o processo de envelhecimento, como estresse agudo, má alimentação e álcool em excesso, por exemplo, quando eliminados aumentam a qualidade de vida e a saúde. "O maior destes fatores de envelhecimento da pele é o cigarro", afirma Robert.

O outro vilão que ainda preocupa os cientistas é o Sol. O Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica & Cerâmica da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos) acaba de realizar um estudo sobre as conseqüências a longo prazo da radiação UV (ultravioleta) para o fio de cabelo. Enquanto os efeitos para a pele já foram amplamente estudados e a indústria cosmética oferece boas e fartas opções de filtros solares cutâneos, o mesmo não acontece para o cabelo, cujas opções de filtros são pouquíssimas.

A conclusão ficou mesmo na base da velha recomendação de que o melhor é fugir do Sol. "A radiação solar promove o aumento gradativo da degradação dos fios", explicou Valéria Fernandes Monteiro, pesquisadora do laboratório, que apresentou os resultados do trabalho no Congresso.

Valéria demonstrou que os raios atingem praticamente toda a estrutura do cabelo, faz o fio se romper com mais facilidade, o padrão de elasticidade cai drasticamente e o mesmo acontece em relação à tenacidade do fio. Além, é claro, do efeito de clareamento que também é fácil de ser percebido depois de uma temporada na praia.

Durante o estudo, os fios foram submetidos à radiação ultravioleta e analisados após 48, 96 e 200 horas de exposição. O exagero - já que ninguém fica exposto tanto tempo direto ao sol - explica-se pelo fato de que esta radiação é cumulativa. Por isso, os efeitos comprovados no laboratório podem ser vistos na vida real mesmo que a pessoa receba doses menores dos raios ao longo de dias e meses, naturalmente.

A pesquisa em questão não separou os danos causados pelos subtipos de UV, que são o A e o B. Como a maioria dos filtros solares para cabelo disponíveis no mercado é voltada para a proteção contra raios B, a continuação da análise dos resultados deste estudo pode abrir a possibilidade para novos produtos serem desenvolvidos pela indústria cosmética.

Consumidor em mente

Segurança também é preocupação das pesquisas universitárias na área cosmética. E, como o teste de novos produtos para que sejam conhecidas suas possíveis reações adversas é importantíssimo para a saúde do consumidor, a busca por maneiras diferentes de como isso pode ser feito é também motivo de estudo.

Testes preliminares em humanos são totalmente descartáveis, uma vez que não se sabe o que um cosmético recém-criado poderia causar. O teste em animais ainda é realizado em alguns casos, embora seja cada vez mais controverso e repudiado pela opinião pública e por grande parte dos próprios pesquisadores, por colocar em risco as cobaias. Ele também não garante a eficácia e segurança do produto na pele humana.

Com isso, os chamados "testes in vitro" têm ganhado espaço. O método mais utilizado, o da cultura de células não é completamente eficaz, uma vez que o material usado como base de teste não compreende as estruturas das camadas da pele (derme e epiderme). Outro método, o de "pele equivalente" consiste em uma pele fabricada em laboratório e, embora bastante efetivo, tem custo alto.

"A alternativa que se mostra mais viável é a de cultura de pele", afirmou em conferência durante o Congresso, o pesquisador Cláudio de Jesus Ribeiro, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo).

O método citado por Ribeiro consiste em utilizar peles descartadas, por exemplo, após cirurgias plásticas, e usá-las como base de teste para novos produtos. A contribuição do trabalho do pesquisador foi analisar como deve ser a padronização da cultura (o meio onde o material será analisado e conservado) da pele.

Outro grupo, também da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, mostrou a aplicabilidade eficaz de um método chamado "ATP bioluminescência" para o teste de qualidade de produtos cosméticos. "Todos os cosméticos devem ter qualidade microbiana, ou seja, um nível máximo aceitável de microorganismos", explicou Ângela Granco Mattos, ao apresentar o seu trabalho no evento.

O ATP é uma molécula de energia, portanto todos os organismos vivos a possuem. Desta forma, é feita uma reação para que o ATP dos microorganismos contidos na amostra do produto a ser analisado (no caso do trabalho de Ângela foram usados corantes, material utilizado na fabricação de cosméticos) seja liberado.

Com outro reagente aplicado, o ATP solto é transformado em luz, posteriormente medida e quantificada através de um aparelho chamado luminômetro. Desta maneira é possível determinar o número de microorganismos presente na amostra, mostrando se está no nível aceitável ou não.

A grande vantagem sobre o método tradicional utilizado pelas indústrias é que este obtém o resultado em 24 horas e o outro leva de sete a oito dias. "Os benefícios são a liberação rápida do produto, a maior rotatividade de estoque e, portanto, maior lucratividade da empresa", afirmou Ângela. O que demonstra uma união saudável entre pesquisa universitária e a indústria cosmética, cujos benefícios atingem diretamente o consumidor.

Fonte: Universia Brasil - Publicado em 13/05/2004 às 02:00 por Renata Costa.

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