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Os marcos do começo e do fim

 

A dificuldade em colocar limites precisos em um processo que é intrinsecamente contínuo explica por que os marcos que escolhemos para delimitar nossa existência têm mudado ao longo da história


Por Fernando Reinach - fernando@reinach.com
 

 

A vida não começa com o nascimento e não termina com a morte. A vida teve um início que desconhecemos e um fim que não vislumbramos. Não sabemos como ela surgiu, mas desde então ela tem se reproduzido de maneira contínua e ininterrupta. Por isso, a única coisa que temos certeza sobre nossos ancestrais é que nenhum deles deixou de se reproduzir. O que começa com o nascimento e termina com a morte é a existência de uma pessoa, que recebeu a vida de seus pais e a passará a seus filhos.


Se por um lado desejamos respeitar e proteger a vida das pessoas, por outro a sociedade enfrenta uma dificuldade crescente em definir com precisão o que é uma pessoa, quando sua existência se inicia e quando termina. A dificuldade em colocar limites precisos em um processo que é intrinsecamente contínuo explica por que os marcos que escolhemos para delimitar nossa existência têm mudado ao longo da história.


Até poucos séculos atrás se acreditava que uma pessoa passava a existir no momento do parto, quando o ar entrava nos pulmões. Para alguns era neste momento que a alma entrava no corpo. Coerentemente, a vida terminava com o último suspiro do moribundo e a saída da alma. O aparecimento e o desaparecimento de uma única função do corpo marcavam o início e o fim.


Mais tarde, a ausência de batimentos cardíacos passou a sinalizar o fim de um indivíduo. Mas se o fim é determinado pela parada do coração, não seria de se esperar que o início fosse determinado pelo surgimento do coração? Talvez a falta de métodos capazes de detectar o início dos batimentos cardíacos tenha impedido sua adoção como o marco para o início da vida. Hoje sabemos que o coração começa a bater na quarta semana de gravidez.


Quando a ciência descreveu nosso desenvolvimento intra-uterino ficou claro que fetos nos estágios finais de seu desenvolvimento deveriam ser considerados pessoas e mereciam proteção legal. Foi nesta época que a fecundação foi postulada como o marco do inicio da existência de uma pessoa. Permaneceu a assimetria.


O início da existência da pessoa passou a ser determinado pelo surgimento da primeira célula com seu genoma, mas o seu fim continuou determinado pela parada cardíaca, que ocorre muito antes da morte da última célula da pessoa. Na segunda metade do século
20, a parada cardíaca foi substituída pela morte cerebral, refletindo o reconhecimento de que a individualidade de uma pessoa reside em seu cérebro, nos seus sentimentos e na sua consciência.

Nesta época muitos passaram a defender a idéia de que o inicio da existência de uma pessoa deveria ser determinado pelo aparecimento do sistema nervoso no embrião, que seria a condição necessária para a existência dos sentimentos, da consciência e das emoções (ele se forma por volta da sexta semana). Desta forma, o surgimento e o desaparecimento de uma única propriedade marcariam o início e o fim da existência de uma pessoa.


Apesar de sabermos que a vida é um contínuo, a sociedade necessita de marcos arbitrários para poder proteger a vida do indivíduo. Mas é preciso compreender que estes marcos não só mudam ao longo do tempo, mas devem ser revistos na medida em que a ciência e a sociedade avançam.


Para mais informações: River Out of Eden: A Darwinian View of Life, de Richard Dawkins; Basic Books, NY, 1995.

 

Fernando Reinach é biólogo.

 

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Fonte: O Estado de S. Paulo, 23/2/2005, reproduzido no JC e-mail 2712, de 23/02/2005.

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