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No Centro de São Paulo, um amante do velho acordeão 

Eridio Lopes descobriu sua paixão em 1948. Durante décadas tocou na
cidade e hoje, aos 72 anos, é o mais antigo afinador e reparador
desse tipo de instrumento na região da Rua General Osório
 

Gilberto Amendola 

No meio de uma festa de São Pedro, no dia 29 de junho de 1948, o jovem Eredion Lopes encontrou o amor de sua vida. O rapagão ficou caidinho por aquela coisinha rechonchuda e verde que emitia sons misteriosos. “Meu primeiro pensamento foi o de sair correndo e comprar uma sanfona. Fiquei apaixonado na hora”, lembrou Lopes, hoje com 72 anos. 

Desde então, Eredion dedicou sua vida ao acordeão. Sim, acordeão! “Sanfona não existe.Oinstrumento também pode ser chamado de harmônica, bandoneón ou concertina, mas sanfona é meio preconceituoso. Essa era a forma como eu falava quando era criança”, explica. 

Mas o caminho musical de seu Eredion (que se apresenta como Elídio para facilitar a freguesia) foi  acidentado. Aos 18 anos, quando comunicou a família que iria gastar suas economias em um acordeão, quase foi expulso de casa. “Meu pai era um espanhol bravo. Achava que essa coisa de música era pra boêmio e vagabundo.” Boêmio e vagabundo? “Minha mãe me segurou em casa. Mas meu pai nunca gostou  muito, não. De qualquer jeito não virei nem um, nem outro.” Aliás, Eridion até tentou tocar profissionalmente. 

“Tocava com mais três colegas. Mas sabe como é? É um que casa, um que muda e outro que a mulher implica...” Pois é. A carreira artística não decolou. Mas omúsico foi se interessando por tudo aquilo que existia

no interior deum acordeão. Ele começou a abrir o instrumento, conhecer os seus segredos, limpar, afinar, polir e etc. e tal. “Quando eu percebi, virei um profundo conhecedor. 

E olha que não existe um acordeão igual ao outro. Toda vez que abro um, tenho umasurpresa.” Hoje, Eridion tem uma oficina de afinação e conserto desse instrumento na Rua General Osório, 136, no Centro da Cidade. “Para afinar um acordeão, a gente demora de duas a três horas. Para uma limpeza completa leva mais de um dia. 

Um serviço completo sai a partir de R$ 200.” Ele se diz realizado com o seu trabalho e quer terminar sua vida cuidando de seus acordeons. Sua única tristeza é não ter conseguido “contaminar” seus três filhos com sua paixão. “Nenhum deles quis seguir a carreira de músico. Todos me apóiam, mas não se metem com o negócio.” O homem até se emociona quando fala do netinho. 

“Tenho foto dele segurando uma sanfoninha. Todo desajeitado, mas tão bonito.” Eridion compensa essa tristeza, adotando (e incentivando) muitos clientes. “Eu trabalho com venda de sapatos, mas meu sonho é aprender a tocar. Por isso, não saio da oficina do seu Elídio”, disse Aparecido Cintra, 45 anos, um de seus pupilos. 

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Fonte: Jornal da Tarde, 16/04/2005

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