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Morte adentro
Profissionais da
UTI dão sobrecarga de medicamentos ou
Cláudia Collucci,
Fabiane Leite
- da Reportagem Local
Apesar de ilegal, a eutanásia -apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável- é ato freqüente e, muitas vezes, pouco discutido nas UTIs de hospitais brasileiros. Dezesseis médicos ouvidos pela Folha confirmam que hoje o procedimento é comum e vêem a eutanásia como abreviação do sofrimento do doente e da sua família.
Entre eles, há quem
admita razões mais práticas, como a necessidade de vaga na UTI para
alguém com chances de sobrevivência, ou a pressão, na medicina
privada, para diminuir custos.
Nos conselhos
regionais de medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia,
exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares sobre
a hora de cessar os tratamentos. Médicos e especialistas em bioética defendem, na verdade, um tipo específico de eutanásia, a ortotanásia, que seria o ato de retirar equipamentos ou medicações que servem para prolongar a vida de um doente terminal. Ao retirar esses suportes de vida, mantendo apenas a analgesia e tranqüilizantes, espera-se que a natureza se encarregue da morte.
Difere, portanto,
da chamada eutanásia ativa, em que há ação direcionada para matar,
como a administração de um veneno, como em ""Mar Adentro", do
espanhol Alejandro Amenábar, concorrente ao Oscar de filme
estrangeiro e que estreou neste fim de semana em São Paulo. Ainda segundo Almeida, professor de bioética da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a palavra eutanásia ficou estigmatizada, e as pessoas têm medo de usá-la. Ele acha necessário que uma legislação estabeleça critérios e condutas éticas para uma morte sem sofrimento. "A morte é um preço que merece ser pago para o alívio da dor", afirma. Sem dúvida Um médico intensivista de São Paulo que não quis se identificar relata que teve de tomar a decisão sobre a eutanásia durante um plantão, sozinho. "Tínhamos um jovem de 18 anos baleado que precisava de terapia intensiva. A UTI estava lotada e havia um doente terminal mantido vivo graças a suporte tecnológico. Não tive dúvida." Ele diminuiu o nível do aparelho que fazia o paciente respirar de forma artificial. A pessoa morreu algumas horas depois.
O médico
intensivista José Maria Orlando, presidente da Associação de
Medicina Intensiva Brasileira, porém, nega que a eutanásia seja
freqüente nas UTIs. Em razão da eutanásia ser considerada crime, ele diz que os médicos ficam reticentes entre deixar que pacientes sobrevivam nessa condição ou retirá-los dela para que morram brevemente. "O médico se vê sob a espada da Justiça." No Estado de São Paulo, uma lei sancionada pelo então governador Mário Covas estabelece o direito de um doente terminal recusar o prolongamento de sua agonia e optar pelo local da morte. Covas, que morreu com câncer na bexiga, beneficiou-se dessa lei. Segundo Marco Segre, professor de ética da Faculdade de Medicina da USP, a tendência é de aceitação da eutanásia em situações de doenças incuráveis. "A tendência é de não manter a vida a todo custo. Mas não podemos ir contra a lei", afirma Segre.
Na opinião do padre
Leo Pessini, especialista em bioética, a tecnologia existente nas
UTIs transforma os pacientes terminais em "cadáveres vivos". Pessini
foi durante 12 anos capelão do HC de São Paulo. Atendeu a centenas
de pacientes terminais que diziam preferir uma morte digna. ________________________________ Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2002200501.htm, disponível em 20/02/2005. |
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