Crônicas Cadastre-se!!! Links parceiros Links

Links Humor

“Raging Grannies”: vovós subversivas 

vmbarbara@yahoo.com
Diretamente para o Portal
 

Centenas de velhinhas revoltam-se no Canadá e saem às ruas com canções provocativas e xales coloridos, como vovós de desenho animado, usando tudo
o que sabem sobre vida e tricô para alcançar um objetivo simples: um mundo melhor para seus netos.

Velhinhas pacatas que se sentam em cadeiras de balanço, cozinham biscoitos e tricotam o resto do novelo de suas vidas. Um grupo de vovós canadenses cansou-se do estereótipo e resolveu subvertê-lo: vestiu xales espalhafatosos, aventais de cozinha, chapéus ornamentados por girassóis, penachos ou frutas e saiu pelas ruas a desafiar o poder. 

As chamadas “Raging Grannies” (vovós furiosas) costumam entrar em manifestações e invadir congressos de repente, sem a menor cerimônia. Adoram passar as tardes nas chamadas “rages”, eventos para os quais não são convidadas e nem ao menos bem-vindas, mas aos quais comparecem assim mesmo. Enfileiram-se em trenzinhos de Conga e entoam melodias tradicionais, com um pequeno detalhe: ao invés de cantar “Se você está contente, bata palmas”, elas dizem 

If we cannot find Osama, bomb Iraq (clap, clap, clap)
If the markets hurt your Mama, bomb Iraq. (clap, clap, clap)
If the terrorists are Saudi
And the bank takes back your Audi
And the TV shows are bawdy, bomb Iraq. (clap, clap, clap)

(Se não consegue achar o Osama, bombardeie o Iraque
Se os mercados magoam sua mãe, bombardeie o Iraque
Se os terroristas são árabes
E o banco recolhe seu Audi
Se os programas de TV são obscenos, bombardeie o Iraque) 

As melodias são conhecidas; as letras falam sobre política, direitos humanos, justiça social. O tom é sempre sarcástico e bem-humorado, mesmo correndo o risco de não agradar a todos: certa vez, um grupo de simpáticas velhinhas enfileirou-se em frente ao então ministro do comércio do Canadá, Pat Carney. Ele abriu um sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-las, ora que gracinha; mas as vovós não estavam interessadas em confraternizações, e, diante do atônito ministro, entoaram a Canção do Livre Comércio: “Quem precisa de cultura ou de identidade / Quando temos Dinasty passando na tevê?”. Carney encheu-se de raiva e esbravejou: “as vozes de vocês são melhores que a lógica, minhas senhoras”. 

Tricô contra a guerra 

O primeiro grupo de Grannies surgiu em 1986, na cidade de Victoria (Canadá), durante protestos contra a utilização de uma ilha canadense para construção de uma base militar norte-americana e depósito de armas nucleares. Na época, as velhinhas faziam parte de um grupo pacifista, mas suas funções limitavam-se a fazer café e argumentar com as paredes. Revoltadas com a discriminação, montaram um grupo independente e decidiram alertar o povo sobre a questão nuclear. Saíram pelas ruas e shoppings “medindo” os níveis de radiação das poças d´água, com a ajuda de paus de macarrão e potes de maionese. Foi um sucesso.   

Desde então, as furiosas vovós já chegaram a tricotar redes de lã em volta de um tanque militar, impedindo-o de prosseguir; alistaram-se como voluntárias para a Guerra do Golfo (“estive casada durante 40 anos, senhor, entendo um bocado sobre resolução de conflitos!”); e vivem promovendo animados chás de confraternização. Não, nada de festinhas pacatas com direito a Bingo e tortas de creme – a idéia é outra: inspira-se no protesto norte-americano do Boston Tea Party, quando colonos despejaram trezentas caixas de chá no mar para mostrar que se opunham a determinações inglesas. As velhinhas, por sua vez, derramam chá pelos rios da região em protesto aos impostos do Canadá. Em certa ocasião, planejaram uma chá com bolinhos em homenagem ao capitão do exército americano que tinha seu navio ancorado em Victoria. Infelizmente, ele não atendeu ao amável convite de tomar um chá com as Grannies e discutir ética nuclear.  

Hoje, há cerca de 70 grupos (gaggles) espalhados pelo mundo, principalmente no Canadá e nos Estados Unidos. Os “gaggles” das vovós não chegam a constituir uma organização, embora elas se encontrem periodicamente e mantenham contato por meio de um informativo impresso e uma lista de discussões via e-mail (“Não é formidável saber que – na nossa idade – alguma coisa é regular?”). São mulheres de 50 a 90 anos com uma meta em comum: mudar o mundo. Sem discursos infindáveis ou reuniões carrancudas: “tratamos os assuntos sérios de uma maneira leve e cheia de humor”, diz a vovó Cathy Hamel.  

Afinal de contas, quando você é uma Granny, pode fazer praticamente o que tiver vontade. “Pode falar, por meio de canções, coisas que nunca teria coragem de dizer, ou, se dissesse, as pessoas virariam a cara, ofendidas”, diz Patricia Lay-Dorsey, 60 anos, de Detroit. “Quando se está vestida com chapéus bobos, aventais coloridos e xales de vovozinha, você prende a atenção das pessoas antes que elas percebam!”. Cathy, a “web-avó” de Woodstock (Canadá), responsável pela lista de discussões e pelo site do grupo, completa: “como avozinhas, teríamos que ser aquelas criaturas quietas e dóceis, não é? De alguma forma não nos moldamos a isso”.  

Bronca de avó 

Existe algo mais poderoso que um punhado de mulheres “pós-menopausa, despertas, conscientes e prontas a desafiar o mundo?”, pergunta a Granny Patricia. São poucos os que têm coragem para encarar uma multidão (ou mesmo meia dúzia) de vovós furiosas. De um navio que carregava lixo atômico em Vancouver, um oficial tentou esguichar ativistas do Greenpeace para fora do bote onde protestavam. Eis que se levanta do barco uma Raging Granny – realmente enraivecida –, aponta o dedo para o homem e passa-lhe um sermão tamanho que ele só pôde desistir da idéia e sair de fininho.  

Em entrevista para uma rádio canadense, a vovó Margaret Slavin-Diamond (63 anos) conta que é normal encontrar uma Granny desafiando um policial, com o dedo em riste, durante uma manifestação. “Ela vê aquele homem como um filho, alguém com quem se preocupar. Diz: o que você pensa que está fazendo, garoto?”. Ninguém, nem o mesmo o presidente americano, escapa das descomposturas: “Georgie Porgie, ouça a sua velha avó / você parece uma criança boba / Tentando ser gente grande”, diz a letra de uma canção pacifista.  

“Ninguém tem coragem de ser violento com uma velha senhora”, diz Rose Deshaw, de 60 anos. Ainda mais quando ela se veste com roupas berrantes, entoa canções tradicionais e segura uma galinha de borracha: “não dá pra entender o que ela está fazendo ali, então você presta atenção e espera pra ver, certo?”. Quando os policiais tentam abordar as vovós, pedindo para que saiam do recinto ou parem de fazer bagunça, há uma estratégia infalível: ignorá-los, e continuar cantando. “Os seguranças nunca sabem o que fazer conosco”, diverte-se a canadense Jo-Ann Jacques, de 60 anos. Ninguém consegue fazê-las parar.           

O bom-humor e a ousadia das Grannies chega a envergonhar as autoridades e desestruturar a emburrada lógica das corporações. Às vezes elas embarcam num caiaque e vão irritar os navios de guerra, com suas canções pouco simpáticas ao Exército. Certa vez, resolveram encher uma carroça com flores e levá-la de presente à base militar. “Os guardas ficaram bem confusos e não sabiam se era permitida a entrada de carroças com flores”, conta uma Granny. “Finalmente, ordens do comandante: as flores não poderiam entrar. Então nós ficamos ali e perguntamos por que diabos eles recusariam um punhado de flores inofensivas, entregues numa carroça inofensiva, quando submarinos repletos de armas nucleares tiveram a entrada permitida”. Ninguém soube responder.  

Há alguns anos, as Raging Grannies foram fichadas pela Polícia Montada Nacional como organização subversiva e movimento anti-Canadá. “Algo pra se orgulhar, hein?”, brinca a vovó Wendy Schau. “Embora eu tenha as minhas dúvidas: não acho que possamos ser chamadas de organizadas”. 

A canção não pode parar 

As vovós criam, a cada dia, músicas sobre os temas mais diversos, para serem entoadas em meio a passeatas e em frente a ministros emburrados. Entre as mais de duzentas existentes, os assuntos variam: discriminação (a polícia tem uma visão perfeita / pra distinguir o certo do errado / as decisões são muito simples: / é como distinguir o preto do branco), transgênicos (eles não dizem o que andam cozinhando no Restaurante Químico / talvez feijões com genes de macaco / Obrigada, Monsanto, parece delicioso), comércio internacional (Nós vivemos numa fazenda corporativa, eeieeio / E nessa fazenda há muitos porcos, eeieeio / com isenção de imposto ali, isenção de imposto aqui...), produtos tóxicos (oh, dioxina, que tremenda toxina! / Ajuda nosso papel a ficar mais branco / Nunca áspero, sempre tão bonito... / Carcinogênicos são incompreendidos / Eles podem nos matar, mas é para o nosso próprio bem!), meio-ambiente (bifenilas plori-i-cloradas, vão fritar seu cérebro e apodrecer suas glândulas).  

A cada mês, dezenas de canções são elaboradas e disseminadas entre os grupos de vovós. Uma das mais ativas compositoras, Vicki Ryder (61 anos), de Rochester (Nova York), desvenda o segredo: “fazer canções de protesto é fácil: basta apropriar-se dos antigos nhenhenhém patrióticos e dar a essas melodias aquele velho ‘oomph’ das vovós”.  

Às vezes elas lamentam a necessidade de terem de se vestir dessa maneira e provocar tamanha algazarra, apenas para serem ouvidas. Alma Norman, de 79 anos, acha que existe alguma ligação perdida entre as mulheres ativas que as Grannies demonstram ser e as mulheres sábias que são. “Será que estamos saindo do rumo?”, pergunta, em depoimento a uma revista alternativa norte-americana. “Ficamos tão orgulhosas por não vivermos como ‘velhas’ e continuarmos ‘jovens’, que corremos o perigo de arrancar aquela raiz profunda que nos prende às nossas origens, só porque ela pode nos segurar pra trás”. Alma imagina se, um dia, os idosos realmente encontrarão seu espaço, “onde nossa experiência seja respeitada e reconhecida, onde possamos repassar sabedoria e as pessoas nos escutem”. Apesar das preocupações, no momento em que se deparam com autoridades chamando-as de “Old hat” (chapéu velho), a resposta é inevitável: na mesma hora, criam uma canção sobre o apelido e saem por aí, desafinando. 

Pode-se achar incrível que, após passarem por tantas décadas de repressão, injustiças, guerras mundiais, e de ver suas amigas Grannies indo embora, uma após a outra, elas ainda tenham tamanha esperança e bom-humor. “Se não tivéssemos, nenhuma de nós conseguiria encarar a velhice de forma tranqüila”, garante Georgie Kunkel, de 83 anos. Então a amiga Jean McLaren, 75, resume o sentimento das Grannies com uma história, tão diferente daquelas que ouvimos de nossas avós antes de dormir: 

“Um dia, fomos até a ilha de Winchelsea protestar contra a base militar de Nanoose. Pisamos no cais e começamos a cantar. A Polícia Militar mandou-nos parar, senão iam prender a gente. Respondemos: ‘espera aí, ainda estamos cantando’. Então eles finalmente prenderam uma das vovós mais assustadas e arrastaram-na para o outro lado do porto, a fim de oficializar as coisas e preencher papéis. Para o azar deles, eu fui a próxima a ser detida; assim, tão logo cheguei à outra ponta do cais, aproximei-me da Marion e começamos a cantar tudo de novo. O moço que estava filmando a manifestação para o Exército tentou MUITO não rolar de rir”. Aí Jean faz uma pausa, volta a ficar séria e conclui: “Então, quando tudo parece não ter mais saída, e conforme cada uma de nós passa pro outro lado, apenas nos juntamos às outras e seguimos cantando”.

* Esta reportagem de Vanessa Bárbara sobre as Raging Grannies, foi publicada parcialmente na revista TPM e no Portal do Envelhecimento, agora em versão integral.

Foi publicada também em: http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/01/302551.shtml, com uma foto, a qual reproduzimos aqui.

Voltar

Cadastre-se

Imprimir Notícia