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Célula
adulta
age
como
embrionária
Descoberta
sobre
células-tronco, publicada
em
revista
científica,
traz
nova
esperança
na
criação
de
terapias
para
doenças
degenerativas
Por Cristina Amorim
‘É o
melhor
dos
dois
mundos.’
Assim
a
geneticista
Lygia da Veiga
Pereira,
da USP, define o
novo
trabalho
de
seu
colega
de
profissão
Rudolf Jaenisch,
membro
do prestigiado
Instituto
Whitehead,
nos
EUA.
Na
nova
edição
da
revista
especializada Cell (http://www.cell.com),
ele
desvenda o
mecanismo
que
permite
certas
células-tronco adultas se comportarem
como embrionárias,
com a
capacidade de se
multiplicar
em
laboratório ao
mesmo
tempo
que se mantêm indiferenciadas.
O
segredo
está guardado
em
uma ‘chave’
molecular, o
gene
Oct-4. A
molécula
trabalha
no
estágio
inicial
do
embrião,
‘segurando’ as
células
para
não
se diferenciarem
antes
da
hora.
No
tempo
certo,
o
gene
se desliga e as
células
então
formam os
tecidos
certos,
como
cardíaco,
ósseo,
cutâneo
e daí
em
diante.
Com
o
controle
do
gene,
é hipoteticamente
possível
fazer
com
que
certas
células-tronco adultas sejam mantidas neste
estágio
sem
diferenciação,
o
que
pode
expandir
seu
campo
de
atuação
na
pesquisa
de
novos
tratamentos.
As células-tronco têm a
capacidade
virtual
de
formar
diversos
tecidos
do
corpo
e,
por
esse
motivo,
são
encaradas
atualmente
como
uma
esperança
na
criação
de
terapias
para
doenças
degenerativas
como
mal
de Parkinson e diabete.
Elas
são
encontradas no
corpo
em
locais
como
medula
óssea,
sangue
e
cérebro.
Porém,
são
aquelas
retiradas
de
embriões
que
têm
tal
versatilidade multiplicada e
são
mais
fáceis de serem cultivadas
artificialmente.
Por
outro
lado,
as células-tronco embrionárias estão no
centro
de
um
debate
ético
sobre
a
validade
de
usar
embriões
humanos
–
que
para
alguns
grupos,
como
os
católicos,
podem
ser
considerados
seres
vivos
– na
pesquisa
de
novos
métodos
terapêuticos,
que
podem
aliviar
o sofrimento de
milhões
de
pessoas
no
mundo.
O
governo
dos EUA,
por
exemplo,
onde
Jaenisch está
baseado,
não
financia o
trabalho
com
células-tronco embrionárias,
apenas
adultas,
por
questões
mais
religiosas do
que
científicas,
decisão
que
engessou algumas
linhas
de
pesquisa
no
país.
O
novo
estudo
se
esquiva
da
polêmica.
Nocaute
Jaenisch se
firma no
trabalho
de
um
pesquisador
do
seu
laboratório,
Konrad Hochedlinger,
que
por
curiosidade
‘ligou’ o
gene
Oct-4
dormente
em
camundongos
transgênicos
para
saber
o
que
ocorreria.
Como
conseqüência,
os
animais
tiveram
tumores
no
intestino
e na
pele
porque
as
células
se desenvolviam de
forma
descontrolada.
Por
outro
lado,
quando
o
gene
era
‘desligado’
ou
‘nocauteado’,
como
dizem os
geneticistas,
o
tumor
enfraquecia,
um
indicativo
de
que
o
processo
pode
ser
revertido. ‘(A ativação do
gene)
Pode
levar
à
formação
de
um
câncer,
por
isso
é
importante
saber
o
momento
de desligá-lo’, comenta a
geneticista
da USP.
A
expressão
do
gene
Oct-4
já
havia sido observada
em
certos
tumores,
como
câncer
de
testículo
e de
ovário.
Já
a
expansão
reversível
‘de
células
progenitoras da
pele
pela
indução
do Oct-4 pode
ser
de
um
potencial
interesse
médico
(...),
que
podem
ser
usados na
regeneração
da
epiderme’,
como
para
tratar
vítimas
de queimaduras, escrevem os
cientistas
na
revista
Cell.
Potência
Apesar
de a
dupla
evitar
a
expectativa
criada
em
torno
da
descoberta,
o
que
mais
chama
a
atenção
na
experiência
simples
é a possibilidade de se
manipular
as células-tronco adultas da
mesma
forma
que
se
trabalha
com
a variação
embrionária.
O
cultivo
em
laboratório
é
um
processo
essencial
para
que
o
cientista
possa estudá-las e
para
a
viabilidade
de
tratamentos.
Só
que,
normalmente,
uma
célula
tirada
de
um
tecido
adulto
começa
quase
que
imediatamente
a se
transformar.
Sua
manutenção
indiferenciada exige o
uso
de
substâncias
químicas
cujos
efeitos
ainda
não
foram
completamente
esclarecidos
nem
mantidos
em
longo
prazo. ‘Jaenisch
mostra
que
é
possível
multiplicar
quase
infinitamente
essas
células
sem
que
elas
percam a pluripotência (a
capacidade
de
formar
qualquer
tecido)’,
explica Lygia.
A
ferramenta
genética,
diz
ela,
aumenta
a possibilidade de se
utilizar
a
fonte
adulta.
Para
o
americano,
a
descoberta
fornece uma
nova
maneira
de
encarar
as células-tronco,
pois
torna
possível
implantá-las de
volta
no
paciente
sem
a
formação
de
tumores.
O
laboratório,
localizado
dentro
do
Instituto
de
Tecnologia
de Massachusetts (MIT), continua a
pesquisar
o
potencial
do
gene
Oct-4.
Agora,
eles
testam se
sua
ativação pode
facilitar
a reprogramação de
células
somáticas (qualquer
uma
exceto
os
gametas
sexuais)
e a
manipulação
de células-tronco embrionárias
para
cada
paciente.
Jaenisch é
um
pioneiro
no
trabalho
com
transgenia.
Ele
foi o
criador
do
primeiro
modelo
animal
transgênico
e conduziu a
primeira
correção
genética
em
camundongos
pela
clonagem
terapêutica.
_____________________________
Fonte:
O
Estado de S.Paulo,
7/5, reproduzido no JC
e-mail
2763, de 09/05/2005.
Disponível
em
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=27832 |
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