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Guerra das células: o retorno dos xiitas A marcha do debate não leva a lugar algum no Brasil Por Marcelo Leite* Todos já viram esse filme, e ninguém gostou: uma questão tecnocientífica com potencial para afetar a vida de pessoas comuns é monopolizada por dois partidos extremos e degenera em algaravia fundamentalista. Foi assim com os transgênicos, que virou bate-boca entre "cientistas" e "ambientalistas", alienando a maior parte do público.
Caminha para ser assim com as células-tronco, uma guerra nada
santa que já opõe "católicos" agarrados ao estandarte das células
adultas, de um lado, a "progressistas" enrolados na bandeira das
células embrionárias, de outro. Tantas aspas se justificam para
indicar que se trata de simplificações. O contingente de pessoas razoáveis tende a sumir e a calar-se, porém, quando os cruzados de lado a lado se erguem para pontificar e condenar. Deve crer que é prudência abandonar o terreno aos partidários da confusão conceitual e dos golpes baixos de retórica (nada contra a retórica em si, mas contra a irresponsabilidade retórica). Outros diriam que é covardia. Começou com os muitos pesquisadores que não reagiram ao maniqueísmo de seus pares quando, de olho nos embriões congelados das clínicas de fertilização artificial, pintaram os adversários como demônios desalmados. Pois não estavam impedindo a cura do diabetes, de Parkinson e dos paraplégicos? Só faltaram os cornos e cascos. Agora recebem o troco na mesma e vil moeda. Em artigo publicado quarta-feira na “Folha de SP”, o tributarista Ives Gandra da Silva Martins e a bióloga molecular Lilian Piñero Eça acusam o Governo federal de "aplicar recursos na manipulação e eliminação de seres humanos, transformados em cobaias, como no nacional-socialismo alemão". Um argumento com tanta consistência e profundidade quanto dizer que um papa é nazista por apoiar a Opus Dei e ter freqüentado reuniões de adolescentes hitleristas quando um país inteiro o fazia. Assim prossegue a marcha insensata do debate sobre células-tronco na grande avenida Brasil, que não leva a lugar algum. Pela direita, com Deus, a família e a propriedade dos embriões congelados. Pela esquerda, com a religião do progresso da ciência. A sorte, ou o azar, é que ninguém presta atenção, mesmo, em meio a mais um chilique cívico anticorrupção. O pouco de luz sobre esse assunto, na semana, veio da Coréia do Sul. Em entrevista a Salvador Nogueira, Woo-Suk Hwang – líder do grupo que montou uma linha de montagem de clones humanos "terapêuticos" – disse acreditar que eles nunca serão "reprodutivos". Nos seus termos, que a clonagem humana em sentido forte "é impossível". Pelo menos as suas palavras correspondem a afirmações objetivas que poderão um dia ser testadas. E, quem sabe, desmascaradas como mais uma forma de propaganda. * Marcelo Leite (cienciaemdia@uol.com.br; cienciaemdia.zip.net), jornalista de ciência, assina no caderno “Mais!” da “Folha de SP” a coluna “Ciência em Dia”, onde publicou este texto. ____________________________________ Fonte: Folha de SP, Mais!, 12/6, reproduzido no JC e-mail 2788, de 13 de Junho de 2005. |
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