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Amizades substituem vínculos
familiares, afirmam especialistas
Afinidades e faixa etária determinam quem será
amigo;
escolha pode durar a vida toda
Por
Barbara Yost
Seres humanos nascem sem presas,
garras ou peles felpudas. Então, sendo assim indefesos, precisamos
fazer amigos. Quando os caçadores primitivos queriam abater mamutes
cobertos de lã, a melhor atitude era caçar em grupos. Atualmente
fofocamos em grupo. Tudo a mesma coisa, dizem os cientistas sociais.
"Não temos defesas naturais", diz Shelley E. Taylor, professor de
psicologia na UCLA (University of California-Los Angeles). "Querer
pertencer a um grupo ou estar com outras pessoas foi o fator que nos
manteve vivos."
Taylor, autor do livro "The Tending Instinct: Women, Men and the
Biology of Relationships" (O Instinto Cultivado: Mulheres, Homens e
a Biologia dos Relacionamentos), diz que "se lançar em busca dos
amigos ainda é uma atitude de adaptação em tempos estressantes."
"Seres humanos são, por natureza, animais sociais", segundo Michael
Monsour, professor de comunicação na Universidade do Colorado em
Denver, onde organiza cursos sobre... amizade!
Uma definição característica de amizade é que ela é voluntária - ao
contrário das relações com parentes, colegas de trabalho ou até
mesmo cônjuges, que se tornam parceiros oficializados por laços
jurídicos. Nós escolhemos os amigos pelo que eles têm em comum com a
gente. Tendemos a escolher amigos semelhantes em tamanho, na
experiência passada, na faixa sócio-econômica e nas sensibilidades.
A maioria das mulheres diz que a melhor amiga é mulher, e os homens
se entendem melhor com outros homens. Gente casada tende a se
relacionar com outros casados. Solteiros saem com solteiros.
Uma pesquisa publicada na edição de outubro de 2002 da revista
American Demographics sugere que, para 73% dos americanos, o melhor
amigo de uma pessoa está em sua mesma faixa etária, entre cinco anos
a mais e cinco anos a menos. A razão disso, segundo Monsour, é
"intangível, é uma espécie de química."
As habilidades para fazer amigos são aprendidas na infância,
acredita Gary Ladd, professor de psicologia e desenvolvimento humano
na Arizona State University. Ladd escreve um livro sobre relações a
dois, e estuda as amizades entre crianças.
"Os amigos são as pessoas em quem as crianças aprendem a confiar",
diz Ladd. Primeiro as crianças escolhem os amigos por causa de sua
proximidade física. Afinal, o garoto que mora ao lado é o coleguinha
bem a mão.
Mas, mesmo na pré-escola, as crianças não brincam com qualquer um.
Entre a quarta e a sexta série, elas começam a valorizar os amigos
pelas suas personalidades e capacidade de estimulação. Aos 13 anos,
começam a buscar os amigos para ter apoio e conselhos. De 6% a 10%
das crianças não têm amigos, acredita Ladd. Algumas crianças são
mais sociáveis que outras, e essa tendência pode ser passada de
geração para geração.
Amizades feitas na infância freqüentemente não duram até a idade
adulta. Mas algumas resistem ao teste da passagem do tempo. A
pesquisa da American Demographics constatou que o típico americano
já conhece seu melhor amigo, ou sua melhor amiga, em média, há uns
14 anos. Em mais da metade dos casos pesquisados, os melhores amigos
são contactados pelo menos uma vez por semana, por telefone.
Serviços de mensagem instantânea e os e-mails têm facilitado a
manutenção das relações.
Charles Pilon conheceu um dos seus melhores amigos, Roy Morey,
quando jogavam futebol americano na Northern Arizona University, em
1955. Depois de formado, Morey entrou para o serviço público,
trabalhando para o Departamento de Estado, e depois para a equipe do
presidente Nixon e para o Programa das Nações Unidas no Vietnam. Foi
na Ásia que Pilon acompanhou o amigo enquanto educador, e foi sobre
a amizade deles que escreveu o livro "Bridging the Gap: Twenty Years
After the War in Vietnam" (Uma Ponte que une as Diferenças: Vinte
anos Depois da Guerra no Vietnam).
"Estamos tão próximos agora como sempre estivemos", Pilon fala sobre
o velho amigo. "Nos vemos com bastante freqüência, e sempre trocamos
e-mails."
Ter amigos assim tão bons faz bem à saúde, acredita Monsour: "Boas
relações pessoais mantém o nível de stress numa faixa tolerável".
Ele explica o que de mais importante recebemos dos amigos: afeto (em
termos de apoio emocional), ajuda e estimulação positiva.
Na sociedade contemporânea, onde tantas vezes as famílias estão em
desacordo e com tantos pais e mães solteiras, os amigos podem ser
mais importantes que nunca, diz Richard Fabes, professor de estudos
sobre o desenvolvimento infantil na Arizona State University.
"Do jeito em que vivemos hoje em dia, com todo o ritmo veloz e tanta
mobilidade, acabamos vendo os amigos com menor freqüência", ele
explica. Mas eles têm um valor que não diminuiu, pelo contrário. "A
importância da amizade pode estar se expandindo".
Em todas as idades, as pessoas valorizam os amigos, acredita Fabes.
Eles enriquecem nossas vidas, e nos fazem sentir conectados: "Um
amigo pode fazer toda a diferença do mundo".
Às vezes amizades são forjadas nas piores circunstâncias. Podem
durar por décadas, mas existe uma maneira infalível de destrui-las.
A traição é o motivo número 1 para a dissolução das amizades, dizem
os psicólogos. Terceiras pessoas- um cônjuge, pai ou mãe, namorado
ou namorada- também podem abalar uma amizade.
Pessoas que não têm amigos, diz Monsour, podem sofrer de depressão e
de dependências químicas. E ter amigos também pode salvar vidas. A
pesquisa da revista American Demographics informa que 71% dos
americanos arriscaria a própria pele por seu melhor amigo.
Tradução:
Marcelo Godoy
Fonte: USA Today
26/06/2004 |
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