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A coragem de lutar pelos direitosDécio Drummond[1] Portal do Envelhecimento: foi muito feliz a escolha dessa denominação, que representa não só um canal por onde poderão fluir as informações e os esclarecimentos sobre o que é envelhecer, mas principalmente poderá vir a se tornar uma tribuna na qual todos aqueles que já passaram dos 60 poderão prestar depoimentos que servirão como trocas de experiências.
Vamos aos fatos: Meu nome é Décio Drummond, tenho 76 anos de idade e ainda me encontro em plena atividade profissional. Formado em Filosofia e em Literatura, continuo, mesmo aposentado, lecionando para me conservar sempre em forma física e mental. No início deste ano, fui convidado pela Maria Cecília Sanches, da Coordenação do Idoso da Secretaria Municipal de Cultura, a apresentar uma oficina literária na Biblioteca Nuto Santana (Praça Tenório Aguiar, 32, Santana - São Paulo/SP). Na ocasião, Cecília estava reunindo um grupo de profissionais para oficinas nas várias bibliotecas do município. Ela me conhece já há bastante tempo e sabe da minha militância política em prol dos idosos, o que servia bem aos propósitos de uma oficina literária dirigida à terceira idade que estimulasse o gosto pela leitura de bons autores, favorecendo os questionamentos e a conscientização, tudo de que os nossos idosos precisam. Por exemplo: a partir de uma dinâmica em que o grupo seja levado a descrever “um encontro marcante”, cada participante expõe seus pontos de vida, provocando, assim, os debates entre os integrantes, o que é sempre muito significativo e proveitoso. Atualmente conto com um grupo de dez participantes, com idades variando entre 40 e 70 anos. Quando apresento textos literários para leitura e análise, todos se manifestam. Com Machado de Assis, por exemplo, que considero o maior autor nacional, comparável a Marcel Proust, com suas reminiscências e suas crônicas de costumes, além do aprofundamento psicológico, fiz com que cada um trabalhasse a memória, descrevendo um fato que o texto de Machado lhe tenha feito lembrar. Aconteceu que já estava trabalhando havia três meses – e nada de pagamento. A seguir transcrevo a mensagem que dirigi ao Secretário de Finanças e que é auto-explicativa: São Paulo, 17 de junho de 2004
Ilustríssimo Senhor Ilustríssimo Senhor Secretário: Em março deste ano fui contratado pela Coordenação do Idoso da Secretaria Municipal de Cultura para dirigir uma Oficina de Literatura na Biblioteca Nuto Santanna. Na ocasião, juntamente com meu projeto de trabalho, fiz três pedidos como condições para assinar o contrato. Uma dessas condições, formalizada por escrito e aceita pela própria Coordenação, era de que quaisquer pagamentos a serem efetuados a mim seriam sempre feitos “na boca do caixa”.
Entretanto, tão
logo chegou a data do primeiro pagamento, surgiu o problema: o
cheque veio cruzado, para ser depositado em conta –corrente
bancária. Tendo em vista que essa deliberação contrariava totalmente
a condição previamente aceita por escrito, reclamei e consegui, a
muito custo, fazer com que o cheque fosse descruzado. No segundo
pagamento, surgiu novamente o problema, dessa vez mesclado com
nuances ainda mais sérias, pois fui submetido a mortificante
constrangimento, tanto na rua Pedro Américo, quanto na Agência do
Banco do Brasil na rua Líbero Badaró. Nesta, foi-me dito entre
outras “pérolas verbais”, que aquela seria a última vez em que um
cheque para mim seria descruzado, pois eu teria de abrir uma
conta. De qualquer maneira, se é conta bancária que provoca êxtase beatífico na turma da rua Pedro Américo, vou dar-lhes um banquete: peço-lhe que passe a transformar todos os pagamentos a mim em presentes (doações) para o Sindicato das Trabalhadores em Casas de Diversões Noturnas (conta-corrente segue devidamente mencionada). Estou certo de que, com essa providência, estou promovendo a felicidade não só das sofridas trabalhadoras da noite, mas, principalmente, da turma tão simpática de Finanças, que não vou mais ver. Quanto a mim, ao fazer essas doações-presentes (pleonasmo deliberado, para ênfase) fico livre desse aborrecimento com cheques, contas bancárias, agências, cruza-descruzas e tudo o que cerca essas bobagens do sistema... Continuarei, sim, a fazer a Oficina, enquanto a Secretaria de Cultura me quiser, pois isso, sim, me é gratificante, só que, daqui em diante, como voluntário, sem pensar em pagamento, que estará sendo bem recebido pelas moças da noite.... (assinado, Décio Drummond) Ora, se venho realizando a oficina a contento, se apresento textos de literatura brasileira, sem jamais perder de vista a qualidade, o mínimo que posso esperar é reciprocidade em forma de pagamentos pontuais. Ao contrário, a situação em que me vi envolvido foi de tal forma meretrícia, que me inspirou a doar meus pagamentos ao Sindicato das Trabalhadoras em Casa de Diversões Noturnas. Resultado: em vista dessa minha atitude firme, as coisas mudaram e o Secretário de Finanças acabou por compreender que, por razões político-ideológicas, não quero ter conta em banco e, assim, fez baixar um regulamento interno, comunicando que todos os profissionais que prestam serviços ao Município e que ganham até uma determinada quantia, podem passar a receber diretamente, sem qualquer condição de conta bancária. O que mais me surpreendeu, a partir de então, foi que passei a receber tratamento “VIP” na Secretaria de Finanças, cada vez que preciso ir lá. Comprovei, mais uma vez, que um homem não pode ser comportar passivamente diante dos acontecimentos. É preciso saber lutar por seus direitos. Quando um homem tem coragem, todos o respeitam. ________________
Décio Drummond, Caixa Postal 3166 - São Paulo – SP. CEP:
01060-970 [1] A “palavra” do senhor Décio foi ouvida na sede da ANG-SP (Associação Nacional de Gerontologia- SP)e contou com a participação de Maria Alice Machado e Áurea Soares (ambas pesquisadoras mentoras). |
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