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Ângela Maria De Marco: a mulher de ouro
Por Áurea E. Soares Barroso – pesquisadora mentora
Era véspera do aniversário de Dona Ângela Maria De Marco,
quando fui até a sua casa e tive o privilégio de conversar
longamente com ela e com seu esposo, Sr. Pascoal De Marco. Um homem
simpático, hospitaleiro, de porte alto e bastante inteligente. Um
ex-vendedor de seguros de sucesso, o que lhe permitiu assegurar uma
boa educação para seus filhos e levar sua esposa várias vezes para a
Europa. No próximo ano o casal irá visitar novamente o leste
europeu. Não sei se o Sr. Pascoal estava emocionado, em razão da proximidade da celebração dos 72 anos de idade de sua esposa, mas o fato é que, naquela tarde, ele estava muito romântico, olhando com emoção para ela e fazendo-lhe várias declarações de amor. Foi ele quem, em primeiro lugar, nos fez conhecer Dona Ângela. Tivemos um encontro cheio de lembranças e de afetividade, a começar pela leitura de várias poesias, entre elas, Velho Tema de Vicente de Carvalho e Velhas Árvores de Olavo Bilac, feitas por ela.
O Sr. Pascoal disse que se lembra perfeitamente quando a viu pela primeira vez. Era final da década de 50. Ele estava em Santos, sentado em uma das mesinhas do Hotel Atlântico, lendo o jornal O Globo e tomando água tônica, quando de repente ela apareceu com sua irmã. Naquela mesma noite a levou para casa e combinaram de ir até um circo. Depois de alguns dias lhe telefonou e soube que ela estava passeando em um sítio. A mãe de Dona Ângela lhe deu as informações necessárias para que ele pudesse chegar até esse lugar. Ele então tomou um trem na estação da Luz, depois um táxi e chegou ao lugar indicado. A partir dali o casal começou a namorar. Lembra que sempre a buscava na Maria Antônia, rua em que funcionava a Faculdade de Pedagogia da USP, onde ela estudava.
O Sr. Pascoal dá boas risadas ao se lembrar das brigas da época de namoro. Quando se desentendia por algum motivo ela tomava o ônibus no ponto seguinte e ele ficava muito desesperado. E para resolver rapidamente essa situação, faz questão de dizer que “aceitava qualquer tipo de acordo com ela”.
Conta que o pai dela pediu informações para “Deus e o mundo” sobre ele, pois a profissão de vendedor de seguros não era muito respeitada naquela ocasião. Ressalta, no entanto, que o casal nunca teve problemas financeiros. Com certeza ele se casaria de novo com ela e, se pudesse, desejaria ter novamente os seus quatros filhos porque são todos muito bonitos, inteligentes e sem vícios. E também porque acertou no casamento. Nesse momento Dona Ângela o interrompe para dizer que foi ela quem acertou no casamento. Em janeiro o casal irá comemorar 45 anos de casados.
Casamento não tem receita
Segundo o Sr. Pascoal não há receita para se ter um casamento tão longo, mas há uma série de fatores que ajuda a mantê-lo, pois precisa de manutenção permanente. Entre os fatores destaca que é preciso aliar sexo, simpatia, amizade e fidelidade.
Ele mostrou um esqueleto de troncos de árvore que sobrou de um enorme ramalhete de flores que ele enviou para Dona Ângela no dia do casamento deles. Todos os anos, na época do Natal, ela enfeita esses galhos com bolas e luzes coloridas.
Ele é um homem religioso, estudioso do Evangelho segundo o Espiritismo e ela não está ligada a nenhuma religião. Mas cada um respeita o caminho espiritual que o outro escolheu seguir. O casal prestou serviço voluntário, durante mais de 6 anos, no Centro de Valorização da Vida - CVV e aprendeu muito sobre a importância de saber ouvir. Isso os ajudou a compreender melhor seus filhos e os seres humanos.
Trajetória política
A respeito de sua trajetória política, Dona Ângela nos contou que um dia viu no jornal um anúncio da Associação Comercial de Pinheiros convidando a comunidade a participar de uma reunião. Resolveu comparecer com seu marido. Quando chegaram, ela se entrosou com o pessoal do Movimento de Ação Comunitária – MAC, de Pinheiros, e desde então (1993) não deixou de frequentar. Depois de alguns anos ela foi eleita presidente do MAC de Pinheiros. Conta que este movimento era muito ativo, nas reuniões havia representantes de escolas, jovens, comerciantes, que reivindicavam melhorias para o bairro.
Dona Ângela continua lutando por melhorias na sua comunidade. Lembra que o então governador Mário Covas queria modificar o Conselho Estadual do Idoso por não concordar com a forma que era feita a escolha do seu presidente. Até aquele momento a presidência do Conselho era ocupada por pessoas com conhecimento técnico-científico, vindas das Universidades e Covas queria que a presidência fosse ocupada por uma liderança idosa eleita pelos próprios membros. E para atender esse desejo do governador, durante um ano, o Estado promoveu um curso para formação de idosos. Nessa época, Dona Ângela se tornou presidente do Conselho Estadual de Idosos. Foi a primeira presidente eleita pela sociedade civil.
Lembra com saudades de Mário Covas, que era muito amigo de seu pai e de seus familiares. Lembra ainda que o Conselho Estadual de Idoso foi criado pelo governador Franco Montoro e que de lá para cá poucos avanços houveram em termos de consciência política de idosos. Acredita que a existência de cursos permanentes de capacitação para lideranças poderia amenizar essa situação. Reforça dizendo que sente muito a falta de um curso dessa natureza, inclusive, ela mesma sente falta de conversar com pessoas que estudam e pesquisam o envelhecimento. Diz mais: muitos conselheiros desempenham importantes atribuições nos seus municípios, mas ao participarem de reuniões ficam muito perdidos, porque não sabem qual a finalidade do Conselho, quais os seus objetivos. Enfim, as reuniões são pouco produtivas e há muita perda de tempo.
A experiência como presidente do Conselho Estadual de Idosos a “fez tomar gosto” pela causa dos idosos. Mas lamenta que eles mesmos não tenham consciência de seu valor, embora sejam importantes até porque o número é muito expressivo.
Fora a militância, Dona Ângela foi aluna da Faculdade Aberta da Terceira Idade da PUC-SP, integrou a diretoria da Universidade Aberta da Terceira Idade da USP, proferiu inúmeras palestras em várias cidades do interior de São Paulo e em outros estados brasileiros. Continua participando de vários cursos, palestras, encontros sobre o envelhecimento. É impressionante o número de diplomas de participações em Congressos brasileiros e estrangeiros. Na juventude cursou no tradicional Colégio Sion. Estudou francês e fez curso de música, obtendo o diploma do Conservatório Musical Conselheiro Lafazette de Piano.
Dona Ângela recebeu o diploma “Mulher de Ouro” entregue pela Associação Comercial, por serviços prestados à comunidade, em 1996. Atualmente atua em várias frentes dos movimentos de idosos e é uma das coordenadoras do Fórum de Idosos, da região Oeste. Faz parte da Diretoria do Conselho de Segurança de Pinheiros - Conseg, da Associação Nacional de Gerontologia – ANG/SP, é membro do Conselho da Associação dos Alunos da Universidade Aberta da Terceira Idade (USP) – AAVATI. Além de representante dos Idosos na Organização do Plano Diretor da Sub-Prefeitura de Pinheiros.
Acredita que hoje é fundamental pensar sobre a problemática do idoso através dos seguintes pilares: cursos de lideranças para idosos, centros de convivência/centro-dia, geração de renda, cooperativas, com assessoria do Sebrae. Enfim, que é importante que os idosos tenham renda para sobreviver com dignidade.
Dona Ângela fez uma palestra sobre cidadania no Fórum de Cidadãos Idosos, da região centro, no mês de outubro de 2004 e foi muitíssima aplaudida. Principalmente por mencionar que sentia enorme responsabilidade por participar do movimento de idosos e que naquele momento ela se despia da capa ilusória do saber, da onipotência, de preconceitos, porque estava mais interessada em ouvir os idosos, do que falar para eles. Que a cidadania é um processo de conscientização da própria existência do ser e que precisa ser construída pelos próprios idosos. Segundo ela:
“Não caí de lugar algum! Que a cidadania não é algo abstrato e sim algo concreto. Implica em convivência em comunidade, em participação e atuação conscientes. Que a cidadania requer organização social, comunicação inter-pessoal e relacionamento humano, de uma percepção crítica e da renovação de conceitos, idéias”.
Finalmente, ela diz que é preciso que o idoso se dê conta de seu valor e de sua própria força para avançar e conquistar direitos.
Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, senão vendo, tratando, pelejando... Camões, Os Lusíadas |
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