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Fala Tereza!!!
Tereza, no dia da consciência negra (20/11), ao ser homenageada na Câmara Municipal de São Paulo Por Áurea Barroso – pesquisadora mentora Tereza Sebastiana de Jesus, 67 anos. Nasceu com a saúde bastante fragilizada, numa madrugada do dia 23 de outubro, de 1937. Seus pais, católicos, a batizaram rapidamente, pois temiam que ela morresse pagã. Esse foi o primeiro embate enfrentado por Tereza. Muitos outros vieram e ela venceu cada um deles. Trabalhou a vida inteira como empregada doméstica. Antes de completar 10 anos de idade, já prestava diversos serviços para moradores dos arredores de sua casa, no município de Taubaté, interior de São Paulo. Cuidava de outras crianças e arrumava a cozinha para alguma vizinha, porque precisava conseguir dinheiro para ajudar nas despesas de sua família. Sorri ao lembrar que um dia conseguiu fazer todas as compras que sua mãe havia lhe pedido e ainda sobrou dinheiro para comprar 250 gramas de banha. Recorda que nesse dia sua mãe a elogiou muito. 1947 e 1948 foram anos ainda mais duros para sua família. Seu pai ficou muito doente, seus irmãos estavam todos desempregados. No entanto, Tereza diz que graças “à cabeça maravilhosa” de sua mãe, sua família nunca passou fome ou frio. Era uma mulher analfabeta, mas não ignorante. Lembra que no Natal de 1948, sua mãe cozinhou fubá junto com arroz e feijão e todos puderam se alimentar. Sua mãe confeccionava cobertores emendando sacos de estopa. Lembra também que seus pais eram muito amorosos. Quando uma de suas irmãs, solteira, engravidou, eles a acolheram com amor. As palavras de sua mãe sobre a gravidez de sua irmã, ainda tocam Tereza: “quando uma mulher solteira se engravida é a época que ela mais precisa de proteção e amor de seus pais”. Tereza conta que nunca foi namoradeira e acha que, por esse motivo, acabou não se casando. Ela não tem filhos, mas vive acompanhada de pessoas que lhe são queridas, familiares, amigos. No dia em que fomos até a sua casa, em um domingo à tarde, estavam lá sua sobrinha Benedita, a amiga Fia e sua professora de ginástica. A vinda para São Paulo Sua família veio para São Paulo em busca de melhores condições financeiras. Aqui, seus irmãos conseguiram emprego. Tereza estudava e quando terminava a aula, deixava o uniforme (avental) na sua casa e ia trabalhar em alguma residência. Lembra que ela e outras colegas iam para a escola sem sapatos, mas que sua mãe lhe dizia para não se sentir envergonhada, pois essa fase ruim logo iria passar. À noite, quando voltava para casa, fazia as tarefas da escola. Naquela época, não havia luz elétrica na Vila Guilhermina, bairro da zona leste da capital onde morava. Somente em algumas casas havia lampião de carbureto. Na casa de Tereza a iluminação era feita por lamparinas. Logo depois Tereza deixou a escola. No ano passado ela voltou a estudar. Matriculou-se na mesma série que havia deixado sem concluir há muito tempo, exatamente a 53 anos: quarta série do Ensino Fundamental I. Diz que o pessoal da sua classe não lhe trata diferente por ser a mais velha da turma. E que tem conseguido alguns progressos: conseguiu passar para quinta série e suas notas são muito boas. A aposentadoria Aposentou-se em 2003, como empregada doméstica. Nesse mesmo ano viajou com amigos para a Europa. Lá conheceu várias regiões da Espanha, França e Itália. Desde que se aposentou, participa de diversas atividades: oficinas de dança, de ginástica, de pintura, todas promovidas pela Secretaria Municipal da Cultura, além de estudar. Freqüenta o Fórum Leste do Cidadão Idoso porque quer compreender mais sobre os direitos da pessoa idosa. É representante comunitária no Conselho Gestor de Saúde. Diz que a população que freqüenta o Posto Municipal Júlio Gouveia, localizado no bairro do Itaim Paulista, tem conseguido algumas melhorias graças ao trabalho do Conselho Gestor: ”O Posto está mais bonito: limpo, recentemente ele foi pintado, algumas árvores foram podadas e os funcionários estão mais atenciosos, antes eles ficavam batendo papo e deixavam o povo esperando”. No dia 20 de novembro concluiu o 10O Curso de Promotoras Legais Populares, promovido pela União de Mulheres de São Paulo, Instituto Brasileiro de Advocacia Pública, Movimento do Ministério Público Democrático. Esse curso é uma importante iniciativa para promoção da cidadania. Nele são debatidos temas como: direito de família, violência doméstica, envelhecimento, inclusão digital, entre outros. É gratuito, tem duração de 124 horas e pode ser freqüentado por qualquer pessoa da comunidade, independente de sua formação escolar.
A grande dama Quando fomos entrevistá-la, nos recebeu com delicadeza e, para nossa surpresa, ela havia nos preparado um verdadeiro banquete. Uma mesa requintada com pratos de porcelana e comida sofisticada: bolo de nozes, torta de maçã, bolo salgado, de chocolate e outras variedades. Tereza sabe se portar à mesa, manuseia com desenvoltura os talheres, fala corretamente e presta atenção quando alguém lhe dirige a palavra. Homenageada na Câmara Municipal de São Paulo Por iniciativa da presidente da União de Mulheres Paulista, Tereza foi homenageada na Câmara Municipal de São, no dia da consciência negra (20/11). Com o auditório lotado por mulheres formandas do curso de Promotoras Legais Populares, amigos, familiares e lideranças da comunidade negra, Tereza agradeceu a homenagem dizendo: “Para muitos, 20 de novembro é um dia como outro qualquer. Para nós, hoje é mais um dia de protesto na segunda maior nação negra da terra que é o Brasil. Os ideais dos Quilombos e o martírio de Zumbi permanecem vivos na memória da comunidade afro descendente. O negro não precisa tomar consciência de seu valor. Mas essa é uma luta diária e de todos nós: negros, índios, velhos, empobrecidos“. Na ocasião destacou a importância das mulheres nos quilombos, principalmente da avó de Zumbi, Sra. Aqualtune, que o incentivou a lutar por igualdade e justiça. |
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