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Idosos em
Instituições de Longa Permanência: Um caleidoscópio1. São seis horas da manhã. A vida já começou na linda residência para idosos. As funcionárias do turno noturno estão atarefadas, tirando os/as idosos/as da cama. São quase sessenta idosos, muitos deles dependentes e com grandes problemas de mobilidade. Não é moleza. Despertar cada um trocá-los/las, fazer a higiene matinal e conduzi-los para o refeitório. A maioria é cadeirante, outros são deficientes visuais, outros sofrem de alguma modalidade de demência. Aqueles que foram tirados mais cedo da cama, continuam a dormir, com a cabeça encostada na mesa. O café vai demorar mais um pouco, pois as funcionárias da cozinha só chegam às sete horas. E, antes do café ainda tem a reza, pois as dirigentes são irmãs católicas. 2. Uma idosa grita no corredor. Ninguém sabe o motivo. Ela deu para gritar. Deve haver alguma explicação para esses gritos. A superiora, que tem formação de auxiliar de enfermagem e longos anos de prática no atendimento ao idoso, pega a idosa e leva-a à sala fechada que serve de necrotério. Justificativa: é manha, ela entende. Entende o que? Uma idosa lúcida, “estudada” chama a visitante e lhe suplica: por favor, não deixe que isso aconteça comigo. Alguns dias depois tentaria o suicídio, cortando o pulso. 3. É preciso subir escadas íngremes, degraus estreitos, onde cabe só meio pé. As idosas moram no andar superior, num enorme quarto, super-quente. Há um ventilador girando, mas não da conta do calor. Pudera, há uma cozinha no fim do quarto ou o quarto está dentro da cozinha. Não há refeitório. Cada idosa come sentada numa cadeira colocada no pé da cama. Olho para aquele espaço e me pergunto, e se houver incêndio? Uma autoridade presente na visita comenta: deveria interditar, mas não tenho aonde mandar as idosas (???). 4. A ILPI foi considerada exemplar. Pelo menos é limpa e não tem aquele cheiro característico de instituições. É também dirigida por religiosas. Tenho a impressão de que há muitas idosas demenciadas. Uma irmã me mostra a rouparia: tudo em perfeita ordem, roupas lavadas e passadas e preparadas para a troca das idosas. Para cada uma, um conjunto completo de peças escolhidas pelas irmãs... 5. O diretor da ILPI exerce liderança em matéria de atendimento institucional, no seu município. Ele me mostra a instituição com muito orgulho: as camas são de alvenaria, sólidas, tanto a mesa como os bancos dos refeitórios-homens de um lado e as mulheres de outro - não saem do chão. As camas, também, são de alvenaria. Como seria sentar-se à mesa? Qual o propósito da direção ao “bolar” tal mobiliário? 6. “Pois é, Dina. Nas suas cartas você falava do seu desejo de voar, do seu inútil desejo de voar. Você era um pássaro engaiolado. Frágil, não tinha forças para arrebentar as grades da gaiola em que estava presa. Sem alternativas. Você sabia que somente a morte teria poder para abrir as portas da prisão. E ela lhe (falou) com a voz do melro: " Chegou a hora de voar pelo azul!"Você já voava, mesmo engaiolada. As grades da gaiola não tinham sido capazes de cortar as asas da sua imaginação. Você dizia: “Tentam castrar-me”. Não conseguirão!”. (... ) Ah! Como os curas que a prendiam odiavam os seus vôos! Não ficaram contentes com as paredes do asilo. Tentaram tirar de você a única coisa que lhe vinha do mundo de fora, o jornal. E isso, sob o pretexto piedoso de proteger sua alma das tentações do mundo! “ (de uma crônica de Rubem Alves dedicada a uma idosa, que morava num asilo e passou a corresponder-se com ele. Morreu poucos dias antes de completar 87 anos. Para seu aniversário estava sendo preparada uma festa pelo Grupo de Poesia, que se reúne semanalmente com Rubem Alves, em Campinas). 7. Ela teria poucos meses de vida. Estava com câncer, fora operada, mas não havia mais esperanças. Só tinha uma filha, solteira, também idosa e doente mental. Não podia continuar morando com ela. Foi para a instituição para passar seus últimos dias, semanas, meses. Não parou um instante desde que foi internada. Assim que se familiarizou com o seu pavilhão de idosos/as dependentes, começou a preparar vasos de flores ou plantas para enfeitar o pavilhão. Preocupava-se com as pessoas que não tinham autonomia para ir passear nos jardins. Viveu mais de 6 meses. Antes de morrer, despediu-se de todos, agradecendo a acolhida que recebeu. 8. Era um idoso, bem idoso. De repente, ele apareceu na cozinha e queixou-se com a funcionária que ainda não lhe serviram o almoço. Embora atarefada com os preparativos do jantar, a funcionária pegou uma fruta na fruteira e deu ao idoso, pedindo que ele esperasse um pouco, pois logo, logo, seu almoço seria servido. Apenas uma ajudante de cozinha, mas, tinha um jeito especial. 9. Sr. P. fora jardineiro durante muitos anos, na casa de uma família rica. Quando envelheceu, a sua patroa orientou-o para receber sua aposentadoria e, como ele não tivesse esposa, nem filhos, pensou que talvez quisesse morar numa instituição, onde houvesse muita área verde. Ele foi conhecer a ILPI. Achou bonito, mas preferiu ir para a casa de sobrinhos, no interior de São Paulo. Vinha freqüentemente à Capital e sempre visitava uma colega, que fora governante na mesma casa e de quem se tornara amigo. Na última vez, soube que ela adoecera e por não ter mais condições de viver sozinha, fora internada numa famosa ILPI. Sr. P. foi visitá-la e passou a cuidar dela, dormindo no chão, no seu quarto. As funcionárias descobriram e avisaram a direção. Sr. P. foi chamado, não para ser repreendido, mas para ser consultado se queria ingressar na ILPI e ajudar a cuidar da amiga. Ele permaneceu lá, mesmo após a morte da amiga e, passou seus últimos dias ajudando a cuidar do jardim, como se fosse a sua própria casa. Para ajudar a pensar Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Art. 1° Declaração Universal dos Direitos Humanos. Pessoas idosas não é uma seção à parte da sociedade: são simplesmente pessoas que envelheceram. Elas não necessitam ou querem as mesmas coisas. Suas necessidades e talentos são tão variados como em qualquer outra geração. Elas apresentam uma grande diversidade de características humanas. Elas deveriam ter liberdade para escolher seu estilo de vida, ter suas opiniões ouvidas, impor respeito e ser capazes de influenciar eventos. No presente, essas aspirações razoáveis são negadas a muitos idosos devido a circunstâncias sobre as quais têm pouco ou nenhum controle. The Age Concern England, Handbook, 1985 No Centro Vivencial da Igreja Metodista em Florianópolis (ILPI), todos os detalhes, a partir do projeto arquitetônico até a organização do cotidiano foram pensados para evitar os problemas que são geralmente associados à vida em instituições totais. Num artigo intitulado A Ilha dos Idosos Felizes, William Schisler, seu fundador e diretor escreveu: “A arte de viver em comunidade é a prática diária do Centro Vivencial. Isto significa um profundo respeito ao indivíduo, suas idéias e sua liberdade, ao mesmo tempo em que se incentiva o dar de si aos outros para criar o bem comum”. Os residentes têm liberdade de ir e vir, participar na administração do Centro Vivencial, nas suas várias atividades, gozam de liberdade religiosa, da abertura e da possibilidade de intercâmbio do Centro com a comunidade. Born, Tomiko, “Re-visitando a Ilha dos Idosos Felizes”. Tempo e Presença, Janeiro/fevereiro de 2003. Ano 25, nº327
Uma solução, embora provavelmente apenas um sonho, seria que todas as cidades tivessem parque – parques bons, bem-guardados – disponíveis para todos. No meio de cada parque poderia haver uma residência para os anciãos. Quando capazes, eles poderiam dar curtas caminhadas ou passear em cadeiras de rodas dentro do parque com seus parentes e amigos íntimos, que também poderiam visitá-los, sentar e conversar em terraços e locais cobertos. Todos nós poderíamos conversar com eles e ouvir suas histórias, aprendendo o que eles ainda têm a oferecer de sua sabedoria. Erikson, Erik H. O ciclo de vida completo (1998). Porto Alegre: Artmed.
Tomiko Born 72 anos, assistente social. Mestre em Ciência, Columbia University, Nova York; Especialização em Política Social, Institute of Social Studies, Haia; Especialização em Orientação Familiar, Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo; Aperfeiçoamento O processo de cuidar do idoso USP, MPAS; Política social para idosos, Japão. Foi professora do Curso de Gerontologia Social do Instituto Sedes Sapientiae. Durante 17 anos foi assistente social supervisora numa ILPI; coordenou o Fórum Nacional de ILPI, SBGG. É docente de cursos do CIAPE. Desde 1985 é membro da SBGG. Em 2003 mudou-se de São Paulo para Caldas, MG. |
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