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Quem é o idoso institucionalizado? Pesquisas desenvolvidas no Nordeste do Rio Grande do Sul permitem dizer quem é o idoso institucionalizado dessa Região.[1]
O presente texto mostra de maneira sucinta o perfil desse idoso e pode identificar também o idoso residente em instituições de longa permanência (ILPI) de outras regiões do Brasil, com sutis diferenças, e leva em consideração três eixos: o conhecimento dos dados que identificam o idoso institucionalizado em seus aspectos gerais (sexo, idade, estado civil, cor e composição familiar), as condições socioculturais e socioeconômicas que o caracterizam (procedência, escolaridade, religião, valores, motivos do asilamento, relações sociais, ocupação do tempo livre, ocupação profissional na maior parte de sua vida, renda e aposentadoria) e as condições de saúde, incluídas as diferentes perdas a ela relacionadas. Dados de 1993 revelam que o percentual de idosos institucionalizados é inferior a 5% (3,5% na Região Nordeste do RS e 4,3% no Estado do RS). A maioria dos idosos residentes em ILPI é de cor branca, do sexo feminino, havendo um predomínio de idosos nas faixas etárias superiores a 70 anos, o que os diferenciam dos domiciliados, onde o maior número se localiza nas faixas etárias inferiores, entre 60 a 70 anos. Á medida que aumenta a idade cresce o percentual de residentes, sinalizando que a saúde declina com o passar dos anos. O tempo de asilamento é variável de menos de um ano a mais de 10 anos. A maioria dos idosos das IPLI possui família, entendendo-se por família a instituição constituída por companheiro, filhos, netos e ainda por parentes. Muitos possuem filhos e mesmo assim estão internados. Poucos possuem companheiros. O estado civil predominante é de solteiros e viúvos, o que demonstra que a ausência de companheiro(a) é um fator determinante no asilamento e que o fato de terem constituído família não garante a permanência do idoso no domicílio. A maioria recebe visitas do núcleo familiar, de parentes, de amigos ou de pessoas da comunidade. As pessoas do núcleo familiar visitam seus idosos internados com maior freqüência do que os parentes, mas o número de visitas vai diminuindo à medida que aumenta o tempo de internamento. É grande a procedência do meio rural e baixa a escolaridade, representada pelo primário incompleto e por um terço de analfabetos. O idoso que hoje está institucionalizado traz consigo as marcas da cultura religiosa, predominantemente a católica. A cultura também se manifesta através dos valores que dão significado e direção à vida, por serem eles que movem os ideais, o querer e o agir. A idade, as experiências e a situação vivencial provocam redimensionamentos na escala de valores do indivíduo. À medida que a pessoa perde a autonomia/independência perde também a condição de tomar decisões e, portanto, de administrar a vida. Para quem está internado essa situação se intensifica e ele fica cada vez mais submetido à vontade e decisões da instituição, anulando gradativamente sua identidade. Talvez, por essas razões, os valores predominantes são a saúde, o dinheiro e a família, aqueles que poderiam garantir a continuidade de uma vida autônoma e independente ou o arrimo necessário. Alguns poucos estão nas ILPIs “por opção própria”, mas os principais motivos do asilamento estão diretamente relacionados à perda da autonomia/independência por terem ficado “sem cuidador”, “sozinhos”, “sem lugar para morar”, “doentes”, “sem trabalho”. Juntos esses motivos totalizam um expressivo percentual e podem ser interpretados como abandono, que se constitui no grande e principal motivo do asilamento. Abandono, no caso, é o estado ou a condição de uma pessoa que se encontra vivendo em uma instituição asilar, porque não tem família ou porque foi deixada pela família aos cuidados dessa instituição. Isso provoca um estado emocional de desamparo, solidão, exclusão. Esse estado emocional advém não só pelo fato de a pessoa estar afastada fisicamente da família ou das pessoas de convívio próximo, senão o de estar privada de relacionamentos que gostaria de ter. Os vínculos anteriormente estabelecidos foram interrompidos, privando o idoso das suas relações de afeto, o que o leva a experiências de solidão pelo isolamento social e emocional. A solidão do idoso está muito relacionada às alterações que ocorrem na família. A redução do suporte familiar aos idosos é também decorrente da mobilidade das famílias no que diz respeito ao seu tamanho e ao número crescente de separações. De uma maneira em geral, a rotina de uma instituição asilar oferece poucas alternativas de ocupação, levando o idoso a ocupar seu tempo predominantemente em conversas, televisão ou rádio, indicando passividade e se referem a atividades individuais, não implicando em processo interativo. A renda média dos idosos institucionalizados é baixa, concentrando-se entre um salário-mínimo a menos de dois salários-mínimos, e é proveniente principalmente da aposentadoria e de pensão, tendo aqueles que não possuem renda própria. A grande maioria é aposentado, embora uma parcela não se aposentou. Ao longo de sua vida geralmente atuaram em trabalho não-especializado ou semi-especializado ou não desenvolveram atividades remuneradas, ficando fora da população economicamente ativa (PEA). Entre os motivos atribuídos ao fato de os indivíduos estarem fora do PEA está o número considerável de mulheres, a procedência rural, a ausência de vínculos empregatícios na maior parte de suas vidas, trabalhos domésticos como ocupação predominante e baixa escolaridade. Muitos dos idosos que vivem em instituições asilares apresentam problemas de saúde, necessitando de cuidados especiais, às vezes permanentes, por terem perdido sua autonomia, por serem portadores de doenças crônicas ou de demências senis. Ainda há os que lá se encontram por não terem família ou por terem sido abandonados pelas mesmas, por não terem quem os cuide ou onde morar e ainda por falta de condições econômicas. Os problemas de saúde podem ser gerados ou agravados por algumas dessas causas, como a solidão e o baixo nível socioeconômico. As doenças que se apresentam são aquelas consideradas típicas da velhice, muitas associadas, constatando-se a predominância das doenças cardio-circulatórias, as osteo-articulares, depressão, diabetes, problemas urológicos, gastrite, problemas respiratórios, neoplasias e ainda há os que não apresentam doenças. Entre as perdas biológicas mais comuns constatadas estão as que se relacionam à dentição, visão, audição, deambulação e ao controle esfincteriano. Muitos necessitam de auxílio para atendimento das atividades de vida diária.
Essas
constatações sinalizam vários aspectos importantes que espelham a
precariedade da realidade do idoso que vive em ILPI e exigem a
implementação de ações governamentais e não governamentais no
sentido de promover mudanças que possam melhorar o seu viver,
dando-lhe maior dignidade.
Miriam Bonho Casara Licenciada e pós-graduada em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul, UCS. Especialista em Gerontologia pela SBGG. Pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre o Envelhecimento da Universidade de Caxias do Sul, com várias publicações na área. Coordenadora da Universidade da Terceira Idade da UCS. [1] Este trabalho é baseado em resultados de pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos sobre o Envelhecimento da Universidade de Caxias do Sul, RS. Ver CORTELLETTI, Ivonne, CASARA, Miriam, HERÉDIA, Vania (orgs). Idoso asilado: um estudo gerontológico. Caxias do Sul,Educs/Edipucrs, 2004 e CASARA, Miriam, HERÉDIA, Vania, CORTELLETTI, Ivonne. A realidade do idoso institucionalizado. Revista Textos sobre Envelhecimento, volume 7, nº 2, correspondente ao semestre julho-dezembro/2004, seção “Artigos Originais”, Rio de Janeiro.p 9-31. |
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